Os Católicos nas colónias

Luís Salgado de Matos

O colonialismo contribuíra decisivamente para desfazer o Estado de ordens português, quebrando a aliança institucional entre a administração pública, as Forças Armadas e a Igreja Católica, mas não impedira um crescimento notável da Igreja Católica na África portuguesa, entre 1945 e 1974.
Na década de 1930, havia cerca de cem mil católicos entre os três milhões de angolanos e aproximadamente quarenta mil nos quase quatro milhões de moçambicanos. No final do colonialismo português, seguindo as estatísticas oficiais, eram católicos cerca de quatro dos cinco milhões de habitantes de Angola e quase dois dos oito milhões que viviam em Moçambique.
A formação de cristandades tornara-se bem visível em Angola, na década de 1950, e em Moçambique já na década de 1960, em pleno período de guerra, pois o número de católicos tinha sido multiplicado por 40, em Angola, e por 45, em Moçambique.
A Santa Sé fez menos católicos do que a República Portuguesa: segundo o Anuário Pontifício, em 1973 haveria 2,3 miIhões de fiéis em Angola e 1,3 milhões em Moçambique, mas ainda assim o crescimento fora surpreendente.
A obra das missões fora assinalável nos campos do ensino, da saúde e da assistência, e a Igreja Católica fornecera involuntariamente muitos dos quadros dos movimentos de independência. Com efeito, as missões, desde o início, tinham dado prioridade à escola rudimentar e à catequese, descurando a formação de elites africanas.
Só no final dos anos de 1950 puseram o ênfase na formação de clero indígena, mas então já era tarde: o ambiente estava contaminado pela guerra, que dificultava ainda mais a formação sacerdotal, e muitos seminaristas abandonaram quer em Angola, quer em Moçambique. Porém, a maior parte dos militantes e dirigentes dos movimentos de libertação passou pelas escolas das missões e muitos tinham estudado para padre ou para pastor.
Com efeito, funções idênticas foram preenchidas pelas missões protestantes, que também tiveram a sua dose de perseguições policiais. Em Moçambique, por exemplo, foram presos trinta e dois presbiterianos, em 13 de Junho de 1972, tendo morrido na prisão da Machava dois deles (um dos quais o pastor Zacarias Maganhela). As independências de Angola e Moçambique vieram mostrar que as suas Igrejas Católicas tinham implantação suficientemente forte para poderem viver sobre si e, sendo o caso, resistir às perseguições.
O afastamento da família, a distância, a pressão do ambiente de guerra e o clima transformavam as efemérides que pautavam a vida individual e colectiva dos homens, em momentos particularmente marcantes nos quartéis dos teatros de operações em África.
Durante os dois anos da comissão, a família do militar era o seu batalhão e os camaradas, gostasse ele ou não. Mas este facto não o fazia esquecer os laços que o uniam aos seus, que continuavam na terra-mãe a celebrar os acontecimentos segundo os rituais em que fora educado, o que era particularmente doloroso. Para amenizar a saudade, iludir o isolamento e vencer os medos, todas as ocasiões serviam de pretexto para celebrar: aniversários, boas notícias ou vitórias desportivas. De entre todas estas datas, porém, o Natal era a festa por excelência.
Viver noutro continente entre povos diferentes e em guerra uma data profundamente inscrita na cultura cristã europeia como momento de paz e esperança de vitória da luz sobre as trevas, do calor sobre o frio e da representação do nascimento do Menino Deus, foi experiência única para os que a viveram.
Nos quartéis, os militares procuravam, nesse dia, imitar os rituais e cumprir o que a sua cultura estabelecera como tradição. Sempre que possível, o capelão rezava a missa, o rancho era melhorado com batatas e bacalhau, distribuía-se o correio e apresentavam-se as Boas-Festas. A Acção Psicológica ajudava também a elevar o moral das tropas, através de prendas do MNF, visita de artistas, mensagens de Natal gravadas e transmitidas pela televisão. Também os comandantes militares procuravam, nessa quadra, estar junto das tropas e justificar os sacrifícios por que todos passavam.
Mas apesar de o Natal ser quase sempre respeitado pelos inimigos e haver, efectivamente, diminuição da actividade militar, a ameaça de algum ataque estava sempre presente, pelo que muitos militares passavam essa data festiva nos seus postos de sentinela, de arma na mão.

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