QUARTÉIS E QUOTIDIANO

Quartéis - Capelas Imperfeitas

Os quarteis

A quadricula militar em que os teatros de operações foram divididos originou a necessidade de criar o mínimo de condições para as unidades se instalarem no terreno. As acções de combate só podiam ser efectuadas a partir de uma base, onde as tropas dispusessem de um conjunto de serviços que lhes permitisse sobreviverem. Construir essa base, o quartel, foi tarefa que os militares portugueses realizaram muitas vezes em simultâneo com a actividade operacional. O Exército utilizou dois tipos de bases, as tácticas e as permanentes. As primeiras destinavam-se ao apoio directo e temporário a operações, normalmente de grande envergadura e onde as condições de vida eram as de um acampamento, com os militares a viverem em tendas e dispondo de reduzido apoio de serviços, quase sempre apenas uma cozinha de campanha, posto de socorros, instalação rudimentar de transmissões e pouco mais. As bases permanentes, os quartéis, dispunham de instalações fixas, melhores ou piores segundo as circunstâncias, com órgãos de comando, administrativos e logísticos e foi nelas que assentou o dispositivo militar português, sendo o mais típico da guerra o quartel da companhia, onde viviam o seu dia-a-dia cerca de 200 homens, comandados por um capitão. A construção desses quartéis estava sujeita a número considerável de factores, uns de ordem operacional e outros de ordem logística, o primeiro dos quais era a localização, que, em princípio, devia estar de acordo com a situação. Por isso, eram por norma instalados nas zonas onde a actividade do inimigo era mais intensa, perto das suas bases das suas linhas de reabastecimento, em locais que facilitassem a defesa. Tinha-se ainda em conta a necessidade de desenvolver actividades de acção psicológica, o que levou os militares portugueses a procurar também situar as suas unidades junto a povoações, com o objectivo de vigiar directamente as populações e de evitar que estas apoiassem os guerrilheiros. Para o efeito estabeleceram medidas de segurança, como controlo de acessos e registo de habitantes, e desenvolveram programas de acção psicossocial, através dos quais lhes forneciam serviços básicos de saúde, de escolaridade e de apoio à melhoria das condições de vida, colaborando na construção de melhores habitações, na abertura de poços de água e até no desenvolvimento agrícola. Mas as considerações de ordem operacional estavam em grande parte sujeitas às limitações logísticas, pois não bastava colocar uma unidade em dado local: era necessário reabastecê-Ia por isso a localização dos quartéis estava condicionada à existência de vias de comunicação – e era ainda necessário que o local dispusesse de condições naturais para a vida do pessoal, principalmente que existisse água nas proximidades. Conjugar todos estes factores não era tarefa fácil, e a localização das unidades resultou sempre do compromisso entre os objectivos operacionais e as necessidades logísticas, e ainda e muito do aproveitamento de infra-estruturas existentes, as quais, não correspondendo por vezes de modo satisfatório nem a um nem a outra, evitavam novas construções, mais despesas e maior perda de tempo. Escolhido ou imposto o local onde instalar o quartel, havia que o construir ou melhorar, tarefa que, no respeitante aos quartéis de companhia, foi na grande maioria dos casos realizada pelas tropas e não por unidades especializadas de engenharia, as quais, regra geral, fizeram instalações para unidades de mais elevado escalão e para os órgãos de comando e de apoio. Muitas vezes foram adaptadas instalações existentes, como aconteceu, nos primeiros tempos da guerra, no Norte de Angola, com propriedades abandonadas – fazendas Tentativa, Maria Feranda, Santa Eulália, etc. -, e também com instalações de empresas agrícolas e industriais, como as da sociedade algodoeira Sagal, no Norte de Moçambique, na estrada entre Mueda e Mocímboa da Praia. Por outro lado, instalações comerciais, cantinas ou armazéns, escolas ou postos sanitários, junto a pontos importantes, como as de Chicoa, no local de passagem do rio Zambeze, e até antigas bases de guerrilheiros, como a Nampula, da Frelimo, no planalto central dos Macondes, que tomou o nome do rio mais próximo, passando a chamar-se Quartel de Mueda, foram utilizados como instalações militares, o mesmo sucedendo com empreendimentos turísticos, que o início da guerra inviabilizou, como Meponda e Metangula, no lago Niassa, quartéis naquilo a que se pode chamar «a terra de ninguém» e que tomaram nomes como Quartel do K3, querendo significar que se situava no quilómetro três da estrada de Farim para Mansabá, na Guiné.

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