1965 - Continuar a guerra

1965
O bloqueio do porto da Beira - uma comédia de enganos

Sanções limitadas

Depois do embargo petrolífero, a Grã-Bretanha quis impedir todo o comércio com a sua colónia rebelde. Mas, ao anunciar que punha de parte a invasão militar, a Grã-Bretanha descartou um dos meios de coacção à sua disposição. Na verdade, Harold Wilson começou por excluir mesmo o bloqueio de produtos para a Rodésia. Acreditando que o possível boicote de certos produtores de petróleo do Médio Oriente e a proibição de exportação de petróleo por algumas companhias controladas pelo Governo seriam suficientes, o primeiro-ministro não tencionava sequer submeter o bloqueio do petróleo às Nações Unidas. Em vez disso, o Foreign Office e o Secretariado das Relações Exteriores da Commonwealth pensavam em desenvolver uma estratégia de sanções limitadas para desgastar o apoio das classes médias brancas rodesianas a Ian Smith. Londres pretendia acima de tudo fazer regressar a Rodésia ao redil colonial e pretendia manter este problema como uma questão entre metrópole e colónia. A Grã-Bretanha, mesmo quando oficialmente pressionava as Nações Unidas, desencorajava acções multilaterais contra a Rodésia e opunha-se a qualquer extensão das sanções aos apoiantes da minoria branca, nomeadamente contra a África do Sul e Portugal, que através de Moçambique era a principal porta de entrada de produtos.

Contudo, a maioria dos membros das Nações Unidas, especialmente o grupo afro-asiático, pretendia a imposição de medidas militares contra a Rodésia, além da extensão das sanções a outros domínios que não o petróleo. A Grã-Bretanha tentou travar estes ímpetos e é para o conseguir que, embora constrangida, declara o bloqueio do porto da Beira.

 

Vista do porto da cidade da Beira. [DGARQ-TT-Flama]

 

Resposta da Grã-Bretanha

A resposta da Grã-Bretanha à UDI foi imediata. A 12 de Novembro, o primeiro-ministro Harold Wilson declarou a UDI ilegal, alterando a sigla para IDI (Ilegal Declaration of Independence). A 19 de Novembro, o Conselho de Segurança da ONU pediu à Grã-Bretanha para pôr fim à rebelião e a 3 de Dezembro o Governo britânico suspendeu o governador e os directores da Reserva do Banco da Rodésia e congelou as reservas da Rodésia em Inglaterra. A 17 de Dezembro, foi declarado o embargo à importação de petróleo e à exportação de um vasto leque de produtos de produção rodesiana, como tabaco, carne, açúcar e minerais.

A Rodésia foi expulsa da zona da libra esterlina e perdeu os direitos de preferência do comércio da Commonwealth.

 

A expulsão da zona da libra esterlina

De todas estas medidas, foi, de facto, a expulsão da zona da libra e a nomeação de um grupo de financeiros de Londres para dirigirem a partir daí as reservas monetárias da Rodésia que causaram maior ira e preocupação aos empresários e proprietários rodesianos.

Em Dezembro, as medidas económico-financeiras contra a Rodésia foram ainda agravadas quando a Grã-Bretanha anunciou que os pagamentos da Rodésia deviam ser feitos noutra moeda convertível que não a libra, e o Governo suíço deu ordem ao Swiss National Bank para bloquear os fundos da Reserva da Rodésia. Ian Smith contava com uma reacção britânica e tinha procurado apoios para lhe fazer face. Um dos mais importantes suportes era o Governo português e Salazar, de quem Ian Smith recebeu garantias quando da sua visita Lisboa. Só depois de saber que Portugal manteria abertos os seus portos e vias de comunicação em Moçambique, Ian Smith avançou para a independência. Para Salazar, esta atitude constituiu um bom pretexto para o seu rancor antianglófilo, ao afrontar por via indirecta os ingleses, vingar-se das ofensas do tempo da ocupação dos Açores e do que considerava ter sido a sua traição no processo de ocupação de Goa, Damão e Diu pela União Indiana e causar-lhes dificuldades junto das suas antigas colónias recém-independentes, pois seriam acusados de racistas se aceitassem as condições de Ian Smith, e de fracos e de cúmplices se não agissem contra ele.

 

Notas impressas em Salisbúria

Um dos aspectos mais emblemáticos da declaração da independência eram as notas de banco, tradicionalmente impressas em Inglaterra, mas em Julho de 1967 o Banco Nacional da Rodésia tinha impresso novas notas em Salisbúria, o que elevou o moral dos rodesianos. De facto, as sanções tiveram de início um forte efeito na economia rodesiana, mas com o passar do tempo o impacto foi sendo amortecido e os fabricantes rodesianos recuperaram rapidamente os seus tradicionais fornecedores no Reino Unido, ou substituíram-nos por outros fornecedores mais baratos e por vezes melhores, o que teve como consequência positiva diversificar o comércio e estimular a indústria.

 

Diversificar mercados

À medida que produtos de outras proveniências substituíam as inglesas, também compradores estrangeiros operando em relativo segredo apareciam para adquirir produtos rodesianos. Ficou claro que, como habitualmente, os negócios eram feitos, apesar das frases piedosas dos políticos. O grande problema era o petróleo…

 

A farsa do embargo do petróleo

A Rodésia dependia do único pipeline que ligava o porto da Beira a Untali e, ao decretar o embargo e ao enviar navios de guerra para o canal de Moçambique, o Governo inglês estava convencido que desferia um golpe mortal na economia rodesiana. Mas a Rodésia tinha alternativas. Tinha boas estradas e linhas ferroviárias para as grandes refinarias na África do Sul e Lourenço Marques e a simpatia dos dois governos. A resposta ao embargo foi rápida, estava prevista e assumiu aspectos de farsa internacional.

 

Petróleo: uma oferta do povo da África do Sul

O Governo da África do Sul, no estrito respeito pela legalidade, garantiu ao mundo que manteria uma rígida neutralidade no conflito e nada faria para ajudar a Rodésia a furar o embargo britânico. Mas, sublinhou o primeiro-ministro Verwoerd, nada poderia fazer para suspender o normal comércio, nem para proibir ofertas privadas feitas pelo povo da África do Sul ao povo da Rodésia. Esta sugestão foi o bastante para que, com a sua tradicional generosidade, os sul-africanos começassem a organizar espontaneamente prendas de petróleo para enviar aos seus vizinhos. Uma organização chamada “Amigos da Rodésia” apareceu para tratar das prendas de petróleo e as estações de serviço e os motoristas foram convocados para doarem o preço de um galão. A ideia gerou um enorme entusiasmo e o primeiro “Petrol for Rhodesia” foi uma prenda de 1.400 galões oferecido por 30 fazendeiros. A chegada deste petróleo a Salisbúria foi uma festa e estes galões multiplicaram-se como os pães no milagre bíblico na refinaria de Untali do multimilionário Tony Rowlands, inglês e dono do pipeline da Beira.

 

Portugal também ajudou ao milagre do petróleo

A 24 de Fevereiro de 1966, Lisboa avisou Londres de que o trânsito de petróleo para a Rodésia seria autorizado sem obstáculos através dos portos moçambicanos. Os ingleses colocaram navios diante do porto da Beira. O bloqueio da Marinha inglesa foi de facto eficaz, mas era exclusivamente feito na Beira. Os outros portos, como o de Lourenço Marques, continuavam abertos. Ninguém, no Ocidente, queria a auto-imolação dos 250 000 brancos colonos da Rodésia, o que todos queriam era uma saída que salvasse a face dos ocidentais junto dos africanos – a tal norma do sufrágio universal era para isso. Ian Smith era um perturbador e o embargo tinha por finalidade fazê-lo razoável ou afastá-lo e substituí-lo por outro líder rodesiano. A comunidade internacional, neste caso representada pela Inglaterra, estava preparada para gerir as ligações entre a África do Sul agora dirigida por descendentes dos boers e a Rodésia, cujos colonos eram maioritariamente de origem inglesa. Os ingleses da Rodésia acabariam por pender para a ligação à Inglaterra. O que ninguém, mesmo os ingleses, esperavam, era que Salazar surgisse a baralhar os jogos, lançando em campo homens de confiança como Manuel Bulhosa, dono das empresas petrolíferas SONAP, SONAREP e OIL COM, esta estabelecida no Malawi, e o engenheiro Jorge Jardim para as manobras e encontros na sombra, que incentivou a montagem de um esquema de furar o embargo através de Lourenço Marques e da África do Sul.

 

Qual a intenção de Salazar ao apoiar a Rodésia?

O apoio de Salazar à declaração unilateral de independência da Rodésia resulta do desejo de humilhar a Inglaterra, mas é também um acto político carregado de implicações, porque esse apoio e a cumplicidade com a África do Sul afirmavam, perante a comunidade internacional, que o Portugal de Salazar escolhera ser como a África do Sul e a Rodésia, ou seja, um país pária, fora da lei e que se afastara da comunidade natural onde a história e a geografia o tinham colocado – a Europa!

A decisão de se lançar numa guerra para se opor às descolonizações já tornara Portugal num elemento estranho na Europa, onde cada país fazia as suas contas de vantagens e prejuízos com as lutas coloniais, e a justificação de Salazar de estar a defender a civilização cristã ocidental soava bastante estranha.

 

Sair da Europa e refundar-se em África?

Agora que o defensor da civilização cristã e ocidental se aliava à África do Sul do apartheid e à Rodésia, que recusava a regra política da decisão por maioria e defendia a posse da terra com base na cor da pele, essa decisão deixava de ter um suporte racional e havia que procurar uma justificação fora da razão.

 

O subsecretário de Estado “Lord” Walston à chegada ao aeroporto da Portela para conferenciar com o Governo português sobre a questão do petróleo da Rodésia. [DGARQ-TT-O Século]

 

O apoio à Rodésia e a aliança com a África do Sul significavam que Salazar rejeitava o Portugal europeu. Salazar queria refundar as grandezas do Portugal das descobertas, em África! Para isso, teria de abandonar a Europa, os seus antigos aliados. Teria que negar a sua história para inventar outra. Salazar já conseguira escrever uma história fantástica de Portugal na Exposição do Mundo Português. Esta era a sua segunda oportunidade. Faltava-lhe agora António Ferro, mas tinha o engenheiro Jardim e o empresário Bulhosa. De qualquer modo, a participação na violação do embargo, independentemente do carácter mais ou menos secreto das aventuras do engenheiro Jardim e dos negócios de Manuel Bulhosa, o apoio de facto à Rodésia transformou Moçambique numa base de acções inamistosas de Portugal contra a Inglaterra e contra a ONU; e a aliança com o regime do apartheid, abertamente hostil aos Estados Unidos, dificultou ainda mais as relações com a superpotência ocidental. Esse apoio aumentou o isolamento internacional de Portugal e teve como consequência fazer com que Moçambique caísse na quase completa dependência estratégica da África do Sul e da Rodésia, tornando-se uma extensão do teatro de operações daqueles seus aliados regionais. O sonho de Salazar do grande Portugal renascido em África para as glórias do passado, realizado através de uma aliança com grupos racistas e marginais no contexto internacional, não passaria, aos olhos comuns, de uma loucura.

 

Angola: 57.073 militares (41.625 da Metrópole)

Guiné: 17.252 militares (14.640 da Metrópole)

Moçambique: 22.856 militares (13.155 da Metrópole)

Total: 97.181 militares (69.420 da Metrópole)

 

O Exército sofreu, durante o ano de 1965, 234 mortos em Angola, 143 na Guiné e 136 em Moçambique, num total de 513 nos três teatros.

 

Chegada a Lisboa de tropas vindas de Angola. [DGARQ-TT-O Século]

 

 

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