23/09/1963 -

Reunião secreta entre Agostinho Neto e um representante do Governo português.

Agostinho Neto teve em 1963 encontros secretos com um representante do Governo português, para preparar uma cimeira que nunca se realizou.

O Governo português procurava aproveitar a situação de fraqueza do MPLA para o atrair à sua política e acentuar as divergências com a FNLA, naquela época no máximo da sua força e prestígio junto da OUA.

Gomes de Araújo visita as tropas numa zona de operações. [AHM]

Era a primeira versão da estratégia “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” que anos mais tarde utilizaria com sucesso junto da UNITA no Leste de Angola, na sequência da Operação Madeira, aliciando Jonas Savimbi e colocando-o a combater o MPLA a troco da promessa de um lugar na administração de Angola.

O problema é que Agostinho Neto não era Jonas Savimbi….

Encontros

Agostinho Neto reuniu-se por cinco vezes com um representante do Governo português em Leopoldville (actual Kinshasa), durante o ano de 1963. Os encontros destinavam-se a preparar uma cimeira com as autoridades de Angola, que chegou a estar aprazada para 23 de Setembro de 1963, em Cabinda.

Um relato pormenorizado das conversações consta de um ofício de cinco páginas do então governador-geral de Angola, Silvino Silvério Marques, para o ministro do Ultramar, Peixoto Correia. Datado de 22 de Outubro de 1963, o documento tem a classificação de “muito secreto” e encontra-se no Arquivo Oliveira Salazar.

No Verão de 1963 o MPLA atravessava uma das crises mais agudas da sua história, a República do Congo, onde o MPLA estava instalado, privilegiava claramente o rival FNLA, de Holden Roberto, que conhecia um dos seus momentos mais altos depois de a OUA ter reconhecido o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), criado pela FNLA, e intimava o MPLA a integrar-se naquela estrutura. Em Junho, a polícia congolesa tinha assaltado a sede do MPLA em Leopoldville e detido temporariamente Agostinho Neto e Lúcio Lara, responsável pelo departamento de organização.

Neto falhou a constituição da Frente Democrática de Libertação de Angola, um fracasso que levou ao afastamento do anterior líder do movimento, Mário Pinto de Andrade. Antes, fora a ruptura de Viriato da Cruz, que acabou por ser expulso do MPLA.

Foi neste contexto de profunda crise interna e externa que ao Governo de Luanda chegam, em princípios de Junho de 1963, informações de que “alguns dos elementos directivos do MPLA mostravam desejos de regressar a Angola”. À frente do Governo de Luanda estava, desde Novembro de 1962, Silvino Silvério Marques.

Silvério Marques e Agostinho Neto conheciam-se de Cabo Verde, onde o primeiro era governador quando o segundo ali estava deportado.

Com o beneplácito de Lisboa,  Silvério Marques decidiu promover o estabelecimento de contactos com o intuito de sondar as intenções de Neto e de outros dirigentes do MPLA. Foram dadas instruções ao capitão Luís Demony, representante das linhas aéreas angolanas, DTA, em Leopoldville e este organizou uma primeira reunião a 26 de Julho, no apartamento de um cidadão português na capital do ex-Congo Belga.

O interlocutor de Demony foi o próprio Agostinho Neto, a quem Demony explicou as razões da iniciativa – Portugal estava, em termos militares, em situação de força e eram conhecidas as graves dificuldades reveladas pelos dirigentes do MPLA, perseguidos em Leopoldville e metidos numa causa de antemão perdida. Razões pelas quais Luanda decidira abrir as portas de Angola, “terra de todos nós”, aos próprios dirigentes do MPLA, porque não os consideravam, “por ora”, criminosos de delito comum, “como eram os da UPA” – a antecessora da FNLA, responsável pela onda de terror de Março de 1961.

Resposta de Agostinho Neto

Agostinho Neto definiu-se como um lutador “por um ideal democrata”, mas sublinhou que “não aceitava” a doutrina portuguesa sobre as províncias ultramarinas, já que Angola “aspirava a ser um país livre, mas ligado por laços de amizade e interesse recíproco a Portugal”.

Nestes termos, declarou “não ser português mas sim angolano, embora casado com uma portuguesa” e quis saber se estava nas intenções de Lisboa a publicação de qualquer diploma no género da lei quadro francesa sobre a independência das suas colónias africanas e se o MPLA poderia “concorrer” às próximas eleições legislativas, previstas para Março do ano seguinte.

O capitão Demony confessou não estar habilitado a entrar em conversações sobre temas daquela natureza e procurou convencer Agostinho Neto sobre a vantagem de contactar directamente as autoridades portuguesas. Propôs a Neto que fosse pessoalmente a Luanda, responsabilizando-se pela sua segurança pessoal, mas não para “discutir ou sequer falar de autodeterminação ou independência”, já que, para isso, não valeria a pena, mas sim para “trabalhar para a valorização do território” bem como para “exterminar duma vez o terrorismo”.

A conversa termina com Neto a pedir “para reflectir” e a propor um “novo encontro”, solicitando até lá “o maior sigilo e nenhuma propaganda”. O assunto é discutido no dia seguinte, numa reunião do MPLA na outra margem do rio Congo, em Brazzaville.

[Arquivo Oliveira Salazar, ANTT. Nota: Um relato pormenorizado das conversações consta de um ofício do governador-geral de Angola, Silvino Silvério Marques, para o ministro do Ultramar, Peixoto Correia, datado de 22 de Outubro de 1963.]