21/07/1970 -

Comunicado do MPLA acusando Portugal do uso de herbicidas contra plantações de populações no Leste de Angola.

Herbicidas e desfolhantes

O uso de herbicidas e desfolhantes pelas forças portuguesas em Angola e Moçambique teve o seu pico de utilização a partir do final dos anos 60, como uma das formas de garantir o controlo de certas áreas críticas e de negar o acesso a elas por parte dos guerrilheiros.

A 21 Julho de 1970 o MPLA difundiu um comunicado acusando Portugal de operações contra as sementeiras das populações africanas no Leste de Angola e algumas testemunhas declararam ter visto cinco aviões C-47 Dakota em operações de lançamento de herbicidas contra plantações de mandioca.

Esta acusação esteve na origem de uma resolução das Nações Unidas de 14 de Dezembro de 1970, pedindo a Portugal para não usar armas químicas e biológicas contra os povos de Angola, Guiné e Moçambique.

Também o Stockholm International Peace Research Institute fez eco da notícia de 9 de Dezembro de 1970 do New York Times, dizendo que “diplomatas americanos tinham indicações que as autoridades portuguesas tinham usado agentes químicos contra sementeiras de populações sob controlo dos guerrilheiros”.

De facto, embora os Estados Unidos tivessem aderido ao embargo de armas a Portugal decretado pelas Nações Unidas, Portugal continuava a beneficiar de outras formas de assistência militar (nomeadamente treino) e, além do mais, a venda de desfolhantes e herbicidas nem sequer estava prevista no embargo!

 

Guerra química e biológica

As primeiras notícias da utilização de herbicidas numa guerra de contra-subversão têm origem na Malásia e no Quénia, onde os ingleses os empregaram para “desmatar” as bermas das vias de comunicações e locais de refúgio de guerrilheiros.

Em 1961, logo após o início da guerra em Angola, Ronald Waring, um inglês especialista nestas armas, enviou um memorando aos comandos militares portugueses sobre o seu emprego. Oficialmente os chefes militares portugueses desprezaram a sugestão, que incluía uma demonstração de eficácia por parte do fabricante, a multinacional ICI, mas o certo é que, em 1966, a Força Aérea e o Exército estavam em condições de empregar tacticamente químicos herbicidas e desfolhantes na guerra de contra-subversão.

Estas operações com agentes químicos ocorreram principalmente em Angola e em Moçambique, pois a política do general Spínola na Guiné pôs maior ênfase na conquista das populações. Acresce que o terreno húmido e pantanoso da Guiné tornava o seu emprego muito pouco eficaz.

 

Operação Alcora – “operações sujas”

O activista holandês anti-apartheid Klaas de Jonge denunciou que várias “operações sujas” de envenenamento foram realizadas na Rodésia nos anos 70 no âmbito da Operação Alcora, uma acção conjunta de Portugal, Rodésia e África do Sul para manter os seus territórios sob domínio das minorias brancas. No decurso da Operação Alcora teriam sido desenvolvidas armas químicas sofisticadas pelo Forensic Sciences Laboratory, em Visagie Street, que era dirigido pelo major-general Lothar Neethling.

Também um antigo coronel do Exército Rodesiano, Lionel Dyck, revelou que membros dos serviços de informações da África do Sul estiveram directamente envolvidos na contaminação de rios com o bacilo da cólera.

 

Desfolhantes e herbicidas – melhorar a eficácia

Os desfolhantes eram usados para destruir a copa das árvores que escondia os abrigos e as bases dos guerrilheiros e os herbicidas para destruir os campos cultivados.

O ideal seria encontrar um composto que reunisse as capacidades dos dois. Os laboratórios sul-africanos conseguiram-no, utilizando o conhecido Agente Laranja, uma mistura 50/50 do herbicida 2,4-D (2,4, ácido dichlorophenoxyacetic) e 2,4,5-T (2,4,5 ácido trichlorophenoxyacetic) baseado no Convolvotox. Estes agentes tinham a vantagem de serem eficazes quer contra as folhas das árvores quer contra sementes.