10/08/1962 -
O general Caeiro Carrasco assume o cargo de comandante-chefe de Moçambique.
Caberá a Caeiro Carrasco a condução das operações militares portuguesas no início da guerra em Moçambique. A guerra já decorria em Angola há mais de três anos e havia um ano que começara na Guiné. Existia já alguma experiência operacional e logística e uma base teórica para a condução das forças.
No entanto, a acção das forças portuguesas sob o comando de Caeiro Carrasco cometeu alguns dos erros básicos da reacção portuguesa em Angola, incluindo um excesso de violência sobre as populações.
Sobre a sua nomeação disse Costa Gomes: “Era uma daquelas coisas que aconteciam. Como foi a nomeação de Holbeche Fino para Angola.
Eram pessoas mal escolhidas. O general Carrasco começou a querer fazer a guerra com fósforos para queimar tudo.
Estava convencido de que, se queimasse as palhotas dos pretos e se impedisse que eles continuassem a viver nas suas aldeias, eles dispersavam”.
Para Caeiro Carrasco, a actividade da guerrilha, uma vez circunscrita a apenas três distritos, apresentava-se facilmente controlável pelo uso de
artilharia e das tácticas tradicionais militares.
O resultado, ainda segundo Costa Gomes, foi que “a população virou-se contra nós”.
Para o general Augusto dos Santos, que o substituiu, Caeiro Carrasco “era um homem indiscutivelmente valente. Mas tinha a concepção de que aquilo era tudo à pancada e mais nada.
A estratégia do general Carrasco não resultou, porque quanto mais violência se exercia contra as populações mais as populações tendiam a apoiar os guerrilheiros”.
A promoção e a nomeação dos generais
A nomeação do general Caeiro Carrasco para o cargo de comandante-chefe das Forças Armadas em Moçambique, tal como a do general Holbeche Fino para Angola, um militar que tinha feito a sua carreira na Guarda Nacional Republicana, como, mais tarde, as nomeações de Kaúlza de Arriaga para comandante-chefe de Moçambique ou a de Barroso Hipólito, em 1973, para comandante da Zona Militar Leste em Angola, onde substituiu o general Bettencourt Rodrigues, colocam-nos hoje a questão da análise da escolha dos comandantes dos grandes
comandos militares terrestres durante a guerra.

O processo no Exército começava com o modo de escolha dos generais, entre o grupo de oficiais com a patente de coronel. Para ser general era necessário aos coronéis frequentarem o Curso de Altos Comandos e os coronéis eram nomeados para a sua frequência por duas razões distintas e não escritas: havia os que eram nomeados como reconhecimento de serviços prestados, como prémio de carreira, e os que eram
nomeados por mérito, porque o Exército esperava deles um bom desempenho futuro como generais.
Estes últimos eram normalmente os mais bem preparados teoricamente, maioritariamente do Corpo de Estado-Maior; os primeiros eram
oficiais “de linha”, que tinham feito carreira em unidades, junto da tropa, ou na Polícia, Guarda Republicana ou Guarda Fiscal.
Como o Curso de Altos Comandos era dirigido por oficiais do Corpo de Estado-Maior, os coronéis que pertenciam a esse grupo tinham muito mais facilidade em obter boas classificações e informações.
Embora existisse uma componente de confiança política, o sistema de promoções funcionava quase em auto-regulação, produzindo generais previsíveis.
A escolha destes para os cargos de comando era feita por cruzamento quase informal de influências e trocas de opiniões, em que o elemento central era o “conceito” em que o militar era tido entre os seus pares e pelos seus superiores.
Embora no início da guerra tenham sido cometidos alguns erros de casting, como o do general Carrasco e o de Holbeche Fino, o método apriorístico de escolha funcionou relativamente bem e, de um modo geral, não foram cometidos grandes erros durante os anos da guerra, sendo as excepções a nomeação de Kaúlza de Arriaga para Moçambique e a de Barroso Hipólito para a Zona Militar Leste em Angola.
