Carta de Viriato da Cruz aos elementos do MPLA, manifestando-se contra Agostinho Neto.
“Ao partir de Leopoldville cumpro o dever de informar os militantes do seguinte: parto de Leopoldville, mas não abandono o MPLA nem a luta pela libertação do povo de Angola.
Tenho estado em desacordo com alguns dirigentes do Movimento sobre o seguinte:
– Não aceito a teoria da inevitabilidade do neocolonialismo em Angola, teoria que alguns dirigentes vêm defendendo. Essa teoria, que afirma não podermos evitar o neocolonialismo em Angola, desarma o espírito combativo do Povo, atraiçoa o grande sacrifício, em vidas e em sangue, que o Povo vem fazendo; abre as portas do nosso Movimento a uma política sem princípios, oportunista e de falta de escrúpulos e de carácter.
– Não aceito a política de divisão que um grupo de dirigentes e militantes vem fazendo dentro do Movimento, desde há dois meses. O MPLA, que lutou sempre sinceramente para a união de todo o nacionalismo angolano, deverá continuar a dar, ele próprio, o exemplo de união dos angolanos.
– Não aceito a política de perseguição e afastamento de militantes da secção política e da secção militar do MPLA. Essa política está errada, é odiosa, é policial. Essa política, que alguns dirigentes vêm fazendo ilegal e arbitrariamente, baseia-se na vontade de um grupo que pretende impor ao Movimento a sua política.
– Não aceito as manobras que certos militantes vêm fazendo para impor ao Movimento uma direcção cujo núcleo principal será um grupo de pessoas que fizeram longa amizade na Casa dos Estudantes do Império.
– Não aceito que não se condene a intriga e a calúnia dentro do nosso Movimento. Nem aceito que os intriguistas e os caluniadores continuem a receber o apoio moral e material do Movimento, quando, por outro lado, esse apoio é negado a militantes honestos e trabalhadores.
– Não aceito a ambição exagerada de um grupo de militantes de vigésima hora.
– Não aceito o culto da personalidade dentro do Movimento. Cada dirigente deve conquistar a confiança e o respeito dos militantes, na base do seu valor pessoal e real, na medida em que ele é fiel à linha política do Movimento, na medida em que ele se dedique ao trabalho sem demagogia, e na medida em que ele respeita e faz respeitar os princípios do nosso movimento.
No MPLA houve sempre lugar e deverá continuar a haver lugar para todos os nacionalistas honestos. O MPLA foi fundado e construído precisamente para esses nacionalistas honestos que pretendem dedicar-se sinceramente à libertação e à defesa dos interesses dos milhões de homens e de mulheres humildes de Angola.
Peço a todos os militantes que permaneçam dentro do Movimento.
É absolutamente necessário realizar-se dentro em breve um Congresso do MPLA (ou uma Conferência Nacional, como se vem dizendo).
Esse Congresso deverá ser preparado por um largo Comité Preparatório composto por militantes que representem os diferentes problemas do povo que deverão ser tratados no Congresso.
– Não aceito um Comité Preparatório com uma maioria de amigos que se constituíram em grupo dentro do Movimento.
Estou pronto a curvar-me perante as decisões de um Congresso representativo da massa de militantes do MPLA, um Congresso preparado honestamente por um Comité Preparatório representativo dos diferentes problemas do povo, mas não aceito a política que um grupo de militantes da vigésima hora pretende impor arrogantemente ao nosso Movimento.
Estou confiante que a inteligência, a razão, o bom-senso e o verdadeiro espírito revolucionário triunfarão dentro em breve no nosso Movimento.
Que cada militante lute por um MPLA unido, forte e fiel aos interesses de milhões de homens humildes de Angola.
Leopoldville, 15 de Novembro de 1962”.