Encontro de Salazar com Benjamim Pinto Bull, dirigente de uma das facções da FLING.
A audiência de Salazar a Benjamim Pinto Bull é um caso único de recepção a um dirigente de um movimento de libertação. É certo que a FLING nunca realizou acções armadas e Pinto Bull não era um guerrilheiro, era apenas um antigo funcionário colonial que pretendia apresentar uma solução à Senghor para a Guiné. As suas ideias sobre a independência gradual e as suas ligações familiares granjearam-lhe simpatizantes entre as autoridades portuguesas, entre os quais o então cônsul português em Dacar, Gonzaga Ferreira.
Por outro lado, a ocasião era propícia a propostas deste tipo.
Também em 1963, Franco Nogueirapropôs a Salazar salvaguardar a posse de Angola e Moçambique e encontrar soluções alternativas para os outros territórios, dos quais o mais difícil era precisamente o da Guiné. A proposta de Benjamim Pinto Bull para a Guiné surgiu assim junto de Salazar e de certos sectores portugueses, mesmo os mais conservadores, como uma possível solução para o problema, com o estabelecimento na Guiné de uma relativa autonomia que poderia influenciar e reverter o processo reivindicativo pela via armada, dissuadir e enfraquecer os movimentos de libertação pela via de partilha do poder com elites locais afectas à política colonial de Portugal e suavizar as pressões de que Portugal era alvo no plano internacional.
Foi neste quadro que Salazar recebeu Benjamim Pinto Bull. A audiência teve apenas o mérito circunstancial do ditador conhecer um negro evoluído, porque o seu racismo endémico não lhe permitia acreditar nas possibilidades de independência ou de autonomia de povos negros e preferiu lançar Portugal na mais estúpida das guerras, aquela que se travou num e por um território inviável, a mudar de opinião. Ainda enganou Pinto Bull com a promessa de iniciar negociações, que anulou à última hora, deixando o homem da FLING comprometido perante os seus pares quando já se preparava para partir para Dacar e daí se dirigir a Bissau com uma delegação negocial da UNGP (União dos Naturais da Guiné Portuguesa).
Pinto Bull ficou desacreditado e foi posteriormente política e pessoalmente estigmatizado por este contacto com Salazar, mas serviu de exemplo aos outros líderes dos movimentos de libertação das colónias, nomeadamente Amílcar Cabral, que fizeram inicialmente reiteradas propostas negociais ao Governo de Salazar, que ele sempre ignorou.
Uma das possíveis causas do fracasso da diligência de Pinto Bull talvez tenha sido a notícia do jornal Le Monde sobre “o contacto de Benjamim Pinto Bull, secretário-geral da União dos Naturais da Guiné (UNGP) com as autoridades portuguesas para a criação de um regime de autonomia interna”.