1962 - Optar pela guerra

FRELIMO

UM MOVIMENTO DE ORIGENS DIVERSAS

Uma verdade oficial

A história oficial da FRELIMO apresenta a criação do movimento que dirigiu a luta pela independência de Moçambique como tendo ocorrido a 25 de Junho de 1962, em Dar es Salam, durante uma reunião da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas) e sendo resultante da união de três organizações pré-existentes: a UDENAMO, União Democrática Nacional de Moçambique, a MANU, acrónimo inglês para União Nacional Africana de Moçambique, e a UNAMI, União Nacional Africana de Moçambique Independente.

Após a sua constituição, a FRELIMO foi logo de seguida reconhecida por vários países africanos.

Uma verdade mais complexa

Existe contudo uma verdade mais complexa que é necessário conhecer para um melhor entendimento das razões para as convulsões internas que marcaram a história da FRELIMO até à presidência de Samora Machel.

Sabe-se hoje que a FRELIMO resultou, no essencial, de uma reunião de duas organizações, a UDENAMO e a MANU, realizada a 2 de Junho em Acra, no Gana.

Foram elementos destas duas organizações que se deslocaram a Acra, onde estava a decorrer a All Freedom Fighters Conference convocada por Nkrumah, e que a 2 de Junho selaram o acordo da união dos dois movimentos de libertação nacional. Os delegados da UDENAMO foram Adelino Gwambe, Fanuel Mahluza, Calvino Mahlayeye e Marcelino dos Santos, e pela MANU estiveram Mateus Mhole, Samuli Diankali e Daúd Atupale.

A origem da sigla FRELIMO

Depois de obtido o acordo entre a UDENAMO e a MANU, os sete elementos fundadores foram confrontados com o problema do nome do futuro movimento.

Adelino Gwambe, na qualidade de presidente da UDENAMO, propôs FREDEMO, Frente Democrática de Moçambique, mas Fanuel Mahluza sugeriu FRELIMO e Marcelino dos Santos apoiou a sugestão por “soar melhor”.

No dia 3 de Julho, Adelino Gwambe fez o anúncio público do nascimento da FRELIMO e nessa data foi enviado um comunicado à imprensa.

Do Gana para a Tanzânia e de Nkrumah a Nyerere – apoios e interesses estratégicos

As convulsões que caracterizaram a primeira fase da vida da FRELIMO radicaram na habitual mistura de interferências externas para obter vantagens estratégicas e lutas pelo poder pessoal que as protagonizaram.

As influências externas resultaram do interesse da Tanzânia, agora independente e com Julius Nyerere na chefia do novo Estado, em alargar a sua influência até ao rio Lúrio, através dos macondes, um povo que habita as duas margens do Rovuma, fronteira entre a Tanzânia e Moçambique. O apoio da Tanzânia à libertação de Moçambique era ainda uma questão de disputa pessoal entre Nyerere e Nkrumah pelo protagonismo na afirmação da africanidade e da luta contra o colonialismo.

Acresce ainda, como quase sempre nesta época, que por detrás destes protagonistas se encontravam as disputas entre os grandes blocos estratégicos, neste caso o conflito sino-soviético.

A Tanzânia era pró-chinesa e Nkrumah pró-soviético.

Assim, depois do acordo alcançado em Acra entre a UDENAMO e a MANU sob os auspícios de Nkrumah, era necessário que os dois movimentos fossem a Dar es Salam receber a bênção de Nyerere.

Por razões geográficas o apoio da Tanzânia era vital para a luta em Moçambique.

Politicamente esse apoio era fácil de conseguir por parte da MANU, maioritariamente constituída por macondes, um povo repartido entre Moçambique (Cabo Delgado), a Tanzânia, Zanzibar e Quénia, que tinha sido criada no ano anterior (1961), na Tanzânia. Reunia os trabalhadores rurais das cooperativas de algodão, cujo dirigente era Lázaro Kavandame, e os grupos mais African National Union), o partido único do regime de Dar es Salam, que estiveram activos na contestação ao poder colonial português durante os acontecimentos de Mueda de 1960. A semelhança do nome entre a MANU e a TANU não era acidental. A MANU era um movimento inspirado, orientado e da preferência das autoridades tanzanianas, nomeadamente de Julius Nyerere, que sempre se mostrou adverso às consideradas «tendências radicais» da UDENAMO e que se aprestava para a expulsar do seu território.

Preparação politico-militar dos guerrilheiros da FRELIMO. [revista Tempo]

 

Regressar à Tanzânia

Depois de obtido o acordo, restava o problema da Tanzânia, de onde a UDENAMO de Adelino Gwembe devia sair. Mas, como o que foi anunciado no Gana já não era UDENAMO, nem MANU, tendo conseguido constituir um único movimento, uma única frente, as autoridades da Tanzânia não podiam dizer que não apoiavam a FRELIMO e foi isso que salvou a UDENAMO, que se revelaria o movimento determinante em toda a guerra de libertação. Os seus elementos marcaram com urgência uma cerimónia para efectivarem a união e evitarem que a Tanzânia os dividisse, e enviaram a delegação da MANU a Dar es Salam.

Surge a UNAMI

Quando as delegações chegaram a Dar es Salam encontraram Baltazar Chagonga, ou Baltazar Costa, à sua espera, dizendo ser o dirigente da UNAMI (União Nacional de Moçambique Independente), que se formara no Malawi e que se deslocara para Dar es Salam quando ouviu a notícia da criação da FRELIMO.

Este terceiro elemento servia os interesses da Tanzânia de diminuir a influência da UDENAMO, pois esta passava a controlar duas organizações da FRELIMO e assim a UNAMI foi aceite como seu membro fundador.

Para fortalecer a UDENAMO no seio da FRELIMO deslocaram-se para Dar es Salam Uria Simango, vindo da Rodésia, e Paulo Gumane, vindo da África do Sul. Colocava-se agora o problema da escolha do presidente da FRELIMO.

A escolha de Mondlane – um mal menor para a Tanzânia

A escolha de Mondlane, um homem do Sul, funcionário das Nações Unidas, casado com uma americana, foi um mal menor para a Tanzânia, que o aceitou, por não dispor de ninguém com igual prestígio na MANU, para o impor como chefe da FRELIMO. As duas facções da MANU, a de Lázaro Kavandame e a pró-Tanzânia, dispensaram-lhe uma permanente desconfiança e mantiveram relativamente a ele uma grande autonomia de actuação, que se traduziu, nomeadamente, na realização de acções violentas no Verão de 1964 sem que elas tenham sido determinadas pelos órgãos dirigentes da FRELIMO.

Nas origens da MANU está a Sociedade dos Africanos de Moçambique, cujas reivindicações sociais e laborais provocariam o massacre de Mueda em 1960.

No ano seguinte, em Janeiro, aquela sociedade juntar-se-ia às delegações de Dar es Salam, Mombaça e Zanzibar da Makonde African Assossiation (MAA), para constituir a MANU. A organização tinha como causa a independência de Moçambique, muito embora os seus primeiros presidente e vice-presidente, Matthew Mmole e Lawrence Malinga Millinga, respectivamente, fossem tanzanianos, e houvesse entre os seus membros quem advogasse a secessão de Cabo Delgado para unificação com o país governado por Nyerere.

A nível de nacionalidades, havia muita latitude entre os macondes, se o presidente e o vice-presidente da MANU eram tanzanianos, já o secretário-geral da TANU, Rashid Kawawa, e o ministro tanzaniano do Interior e dos Negócios Estrangeiros, Oscar Kamkomba, eram moçambicanos de origem.

Um conflito tribal na UDENAMO

Na UDENAMO existia uma disputa pela chefia entre Uria Simango e Adelino Gwambe, com o primeiro, pastor da Igreja Unificada de Cristo, a acusar o segundo, com apenas a 4ª classe, de não ter habilitações para o cargo. A estas acusações somaram-se as suspeitas de favorecimentos tribais, como tantas vezes acontece em África, para esconder as lutas pelo poder entre grupos. Adelino Gwambe era instintivamente contra Simango, por este ser um shangana ndau e ir favorecer o seu grupo, enquanto ele era um shangana tsonga.

Foi neste ambiente que outros shanganas ndau, como Fanuel Malhuza, convidaram Mondlane para vir a Dar es Salam. Mondlane chegou a 16 de Junho e recebeu um cartão da UDENAMO para participar na reunião promovida pelo Governo da Tanzânia para efectivar oficialmente a integração dos três movimentos na FRELIMO e escolher os dirigentes, marcada para 23 de Junho.

No dia 23 começaram as conversações da integração, na presença de Eduardo Mondlane, tendo ficado estabelecido que o dia 25 seria o dia da escolha de novos líderes da FRELIMO.

Eduardo Mondlane, Uria Simango e Paulo Gumane foram os candidatos da UDENAMO a presidente da FRELIMO, enquanto a MANU apresentou como candidatos os seus presidente e vice-presidente Mateus Mhole e Lourenço Milinga (ou Matthew Mhole e Lawrence Malinga Millinga, dado terem nacionalidade tanzaniana).

Os primeiros dirigentes da FRELIMO

Os primeiros dirigentes então escolhidos ou eleitos para a nova formação, foram:

– Dr. Eduardo Chivambo Mondlane (presidente);

 – Reverendo Uria Simango (vice-presidente, pastor da região de Sofala, da UDENAMO); 

– Samuel Dhlakama;

– Lázaro Kavandame (mais tarde secretário provincial de Cabo Delgado) e Jonas Namashulua, ambos originários das cooperativas dos camponeses de Cabo Delgado;

– Mateus Muthemba e Shafurdin M. Khan, das associações de ajuda mútua de Lourenço Marques e Xai-Xai, no Sul de Moçambique;

– Marcelino dos Santos (secretário do Departamento de Assuntos Políticos, mais tarde secretário para Assuntos Externos).

Mondlane tinha de voltar aos Estados Unidos a fim de ir terminar o seu contrato com as Nações Unidas e deixou Simango a presidir mas, devido às muitas pressões e ameaças de desmembramento da FRELIMO regressou rapidamente a Dar es Salam.

Divergências e lutas intestinas

As lutas intestinas que agitaram a vida da FRELIMO, tiveram origem, em boa parte, em divergências no interior de cada um dos movimentos fundadores e que foram importadas para o seio da Frente. Muitos dos dirigentes das organizações fundadoras da FRELIMO acabaram por romper com ela e as suas organizações de origem cindiram-se ou dissolveram-se.

A MANU cindiu-se, com uma parte a manter-se na FRELIMO e outra a sair. Com a UDENAMO sucedeu o mesmo, embora o seu núcleo central, com Marcelino dos Santos e Filipe Magaia, tenha constituído a base da FRELIMO e só uma pequena minoria tenha acompanhado Adelino Gwambe. A UNAMI desapareceu com a mesma simplicidade com que tinha surgido. Para Mondlane, tratava-se de um grupo criado pelos tanzanianos, aproveitando uma organização de mineiros do carvão de Tete, sem enraizamento em Moçambique.

Os dirigentes da MANU acabariam por ser expulsos da FRELIMO em Maio de 1963, depois de terem exigido, em conjunto com Gwambe, uma presidência dupla da FRELIMO para a MANU e a UDENAMO e de se mostrarem exasperados com as hesitações de Mondlane em iniciar a luta armada.

Esta impaciência, aliada às lutas que se travavam na FRELIMO desde a fundação em 1962, motivadas pela desconfiança numa liderança shangana e sulista, tida como colaboracionista do regime colonial e dos EUA, levou os macondes leais à MANU a fazerem a primeira incursão armada em Moçambique, contra a Missão Católica de Nangololo, que se saldou pela morte de um padre holandês de nome Daniel.

Para além dessa operação, que a FRELIMO classificou como acto de banditismo,
não há registo de qualquer outra actividade militar posterior da MANU na guerra da independência, onde a FRELIMO teve sem dúvida o maior quinhão, seguida, de muito longe, pelo COREMO (Comité Revolucionário de Moçambique), que Gwambe fundou.

Uria Simango ainda pertenceu ao triunvirato dirigente formado por ele, Samora Machel e Marcelino dos Santos para assegurarem a presidência da FRELIMO após o assassínio de Mondlane, mas acabaria expulso e, mais tarde, acusado de traição, tal como Kavandame.

Reforços para a FRELIMO através da UDENAMO

Após a formação da FRELIMO muitos jovens moçambicanos que estudavam em Portugal e noutros países europeus começaram a convergir para Dar es Salam. Quase todos entraram na nova organização através da UDENAMO, como foi o caso de Joaquim Chissano e de Pascoal Mocumbi, entre outros.

Preparação político-militar dos guerrilheiros da FRELIMO. [revista Tempo]

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