1966 - Construir um bastião branco na África Austral

1966 - Construir um bastião branco na África Austral

Os Acontecimentos

  • 03
      01/1966

    03/01/1966 - 

    Início da I Conferência de Solidariedade Tricontinental em Havana com cerca de 500 delegados que adoptaram uma linha dura contra o colonialismo, e a partir da qual foi criada a Organização de Solidariedade dos Povos da Ásia, África e América Latina.

    Amílcar Cabral teve diversos encontros com Fidel Castro, em Havana. Foi a partir desta data que se iniciou a ajuda cubana ao PAIGC, fornecendo assessoria militar e ajuda médica.

  • 04
      01/1966

    04/01/1966 - 

    Criação do Serviço Postal Militar, através do Decreto-Lei n.º 46.826.

    Com o enorme volume de tropas já presentes nos territórios ultramarinos, tornava-se indispensável a criação de um serviço autónomo, totalmente dedicado ao manuseamento e encaminhamento da correspondência dos militares, para além, naturalmente, do correio oficial que devia circular entre os diversos territórios sob administração portuguesa. Do ponto de vista psicológico, a atempada circulação da correspondência era de primordial importância para a manutenção do moral dos militares destacados.

    Os serviços foram organizados pelo capitão Ernesto Tapadas, requisitado em Junho de 1961 aos CTT e imediatamente enviado para Luanda. Desde logo se iniciou a criação de um serviço postal militar no Ultramar, e especialmente em Angola, com o objectivo de fazer chegar aos seus destinos, no mais curto prazo, toda a correspondência de e para as unidades e órgãos militares, que se encontravam dispersos pelo território de Angola.

    Uma das primeiras medidas foi a introdução dos códigos de endereço, constituídos por um número com quatro algarismos, em que os três primeiros definiam a unidade e o último o território. Este último foi atribuído da seguinte forma:

    1. Índia

    2. São Tomé e Príncipe

    3. Macau

    4. Moçambique

    5. Timor

    6. Angola

    7. CaboVerde

    8.  Guiné

    9. Metrópole

    O algarismo 1, inicialmente destinado à Índia, acabou mais tarde por ser atribuído às unidades da Armada.

    Os efectivos do Serviço Postal Militar (SPM) foram crescendo, tendo aí prestado serviço, ao longoda guerra, mais de 700 militares. À medida que se instalaram, os seus serviços foram também aumentando a sua autonomia em relação aos CTT, ganhando prestígio junto dos militares, que esperavam sempre com ansiedade as cartas e aerogramas trazidos pelo SPM.

    Durante o período da guerra, de 1961 a 1975, o SPM transportou mais de 20 mil toneladas de correio e encomendas, com mais de dois milhões e meio de contos em valores declarados.

  • 10
      01/1966

    10/01/1966 - 

    Reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da Commonwealth para analisarem o embargo à Rodésia.

    Nesta reunião o primeiro-ministro inglês, Harold Wilson, previu que a conjugação de sanções económicas e financeiras contra a Rodésia seriam suficientes para trazerem a colónia rebelde de novo à mesa de negociações e provocarem a rejeição da declaração unilateral de independência. Uma previsão que não se confirmou.

  • 21
      01/1966

    21/01/1966 - 

    Reunião dos ministros africanos do Trabalho no Gana que pediram a expulsão de Portugal do OIT (Organização Internacional do Trabalho).

  • 22
      01/1966

    22/01/1966 - 

    Ataque de guerrilheiros do PAIGC a Fulacunda (Sul de Bissau), apoiado com morteiros 82mm e foguetes de 122mm, causando 13 feridos.

  • 13
      02/1966

    13/02/1966 - 

    As forças portuguesas sofreram cinco mortos durante uma operação na Guiné.

    Durante a Operação Falcão as forças portuguesas em operações sofreram cinco mortos e três feridos ao tentarem entrar na bolanha de Cassum, sendo obrigadas a retirar.

    Durante a operação, e devido à perseguição que os guerrilheiros fizeram às tropas em retirada, estas não tiveram possibilidade de resgatar dois corpos de militares portugueses.

    Conforme consta do relatório: “Os guerrilheiros fizeram fogo frontal e de flanco, além de flagelações de morteiro ajustadas”.

    O PAIGC revelava uma elevada capacidade militar, quer ao nível da manobra táctica quer ao nível do armamento utilizado.

  • 16
      02/1966

    16/02/1966 - 

    Instruções do primeiro-ministro inglês para impor o embargo de produtos petrolíferos à Rodésia.

    Harold Wilson enviou uma nota a todos os ministérios do Governo britânico expressando a sua preocupação com as notícias de que o embargo de petróleo à Rodésia estava a ser violado com crescente eficácia e ordenou que fossem tomadas todas as medidas para o fazer cumprir.

  • 23
      02/1966

    23/02/1966 - 

    Remodelação do Comité Director do MPLA, de onde saíram Mário de Andrade e Manuel Lima, que chefiava o Departamento da Guerra.

  • 24
      02/1966

    24/02/1966 - 

    Operação do PAIGC na região de Cabolol, Sul da Guiné.

    Durante a Operação Teste as forças do PAIGC emboscaram forças portuguesas em operações na região de Cabolol (Sector Sul). Nesta emboscada as forças portuguesas sofreram dois mortos e 17 feridos e um desaparecido e tiveram de retirar por terem esgotado as munições.

    Do relatório da operação consta a presença de um helicóptero a aproximar-se para apoiar os guerrilheiros, com a forma de um Alouette III, facto que nunca foi provado.

    Apesar disso, pode dizer-se que a guerra na Guiné se travava já com um elevado nível de intensidade, com as forças do PAIGC a disporem de material de idêntica capacidade, se não superior, às forças portuguesas.

    O Governo português nunca entendeu esta realidade de que Portugal enfrentava na Guiné um adversário cada vez mais bem organizado, com melhores meios de combate e que tinha a curto ou médio prazos capacidade para colocar em xeque as forças portuguesas.

    Desde 1966 era clara a evolução do PAIGC no campo de batalha e evidentes os riscos de um confronto desigual naquele teatro, mas o Governo de Salazar, passadas as hesitações dos primeiros anos após o desencadear da guerra em Angola, incentivou e reforçou a teoria do território uno e indivisível entre a Metrópole e todas as suas colónias.

    Foi uma opção insensata, que veio colocar o regime num impasse político, em face da degradação da situação militar.

  • 24
      02/1966

    24/02/1966 - 

    Um golpe de Estado no Gana depôs N’Krumah.

    Um golpe militar depôs o presidente N’Krumah, que se encontrava em Pequim em visita oficial.

    O golpe de Estado no Gana foi um acontecimento com profundas repercussões políticas em África.

    N’Krumah era um teorizador do pan-africanismo, um entusiasta da União Africana e um símbolo da África independente.

  • 24
      02/1966

    24/02/1966 - 

    O Comité dos chefes de Estado-Maior das Forças Armadas Britânicas informou o Governo de que petroleiros “piratas” poderiam chegar sem aviso à cidade da Beira.

    Em resposta a esta notícia, o Comité Militar do Ministério da Defesa inglês recebeu ordem para desenvolver os planos de contingência que efectivassem o bloqueio ao porto da Beira, devendo ser aprovados pelo primeiro-ministro.

  • 01
      03/1966

    01/03/1966 - 

    Efectivação do bloqueio naval pela Inglaterra ao porto da Beira, com a presença, em média, de duas fragatas ou destroyers, um navio auxiliar e aviões Schackleton da RAF, que usavam a base malgache de Majunga.

    O bloqueio do porto da Beira, Beira Patrol para os ingleses, foi efectivamente estabelecido a 1 de Março. A Royal Navy estacionou a fragata da classe Rothesay HMS Lowestoft ao largo da Beira, preparada para as operações de intercepção a partir de 4 de Março, sendo apoiada por aviões do HMS Ark Royal, um porta-aviões desviado do seu trânsito para o Extremo-Oriente.

    As primeiras tentativas de aproximação de petroleiros ao porto da Beira foram confirmadas com a detecção do navio de bandeira grega Joanna V, que tinha feito uma viagem suspeita do golfo arábico para Roterdão, contornando a África. O seu proprietário tinha sido contratado por um agente sul-africano para realizar vinte e sete viagens para um cliente não especificado, que se presumia ser a Rodésia. Um segundo petroleiro, Manuela, foi também detectado a navegar para Moçambique, vindo de Bandar Mashur, no Irão.

    Foram os incidentes que ficaram conhecidos como do Joanna V e Manuela e que conduziram a um dos mais invulgares e longos bloqueios da história moderna.

    Entre 1966 e 1975, a Marinha britânica, a sua aviação naval e a Força Aérea inglesa monitorizaram durante quase dez anos navios no canal de Moçambique, numa tentativa de evitarem que o petróleo chegasse à Rodésia via porto da Beira. Embora os militares executassem as suas missões com dedicação e profissionalismo, o bloqueio falhou rotundamente. Por razões políticas, a Inglaterra não estendeu o bloqueio aos outros portos de Moçambique (Nacala e Lourenço Marques), nem aos da África do Sul, mas também não abandonou a missão porque essa retirada era impopular entre a Marinha. A missão apenas terminou com a independência de Moçambique, podendo então a Grã-Bretanha endossar a responsabilidade para as Nações Unidas.

    O bloqueio da Beira: uma história mal contada

    Os serviços de informação ingleses haviam advertido o Governo que as sanções teriam pouco impacto na economia da Rodésia. De facto, os serviços de informações ingleses conheciam bem Tinny Rowlands, o milionário inglês dono da Lhonro, que era por sua vez dona do pipeline Beira-Rodésia e da refinaria rodesiana. Sabiam como ele ia contornar as sanções apoiado pela África do Sul e por Moçambique. Apesar disso, Harold Wilson comunicou aos ministros dos Negócios Estrangeiros da Commonwealth que o efeito conjugado de sanções económicas e financeiras faria terminar a rebelião em semanas, quando muito em meses. O falso optimismo de Wilson foi apresentado, tendo por base a convicção de que a África do Sul e Moçambique honrariam as sanções britânicas.

    Foi com este optimismo que a Royal Navy recebeu ordem para executar o bloqueio.

    O porta-aviões Ark Royal, com aviões Sea Vixen, Scimitar e Buccaneers, além de helicópteros, largou da base de Mombaça, acompanhado pelas modernas fragatas da classe Rothesy HMS Rhyel e Lowestoft, às quais se juntará a Plymouth, com destino à Beira.

    Começava assim o bloqueio da Beira que duraria 10 anos, período em que navios ingleses se foram sucedendo no horizonte do mar da Beira. Como diria um comandante inglês numa mensagem: Beira is to be enjoyed, not endured (a Beira é para ser gozada e não para ser sofrida).
    Infelizmente, as tripulações inglesas nunca gozaram das delícias da Beira.

    Muitos outros navios ingleses passaram temporadas ao largo da Beira, vendo os navios entrar e sair. Entre eles, as fragatas HMS Devonshire, HMS Ashanti, HMS Mohwak, HMS Nubian, HMS Euryalus e HMS Cleopatra. Da classe Rothesy: HMS Rhyl, Lowestoft, a Berwick, que interceptou o navio Manuela, e a Plymouth.

     

  • 03
      03/1966

    03/03/1966 - 

    Primeira missão operacional de helicópteros em Moçambique.

    Um helicóptero ALII executou uma missão de evacuação de um piloto acidentado na região de Mueda.

    Os helicópteros Aloutte II tinham iniciado a actividade operacional em Angola, tinham sido depois transferidos para a Guiné e chegavam a Moçambique, antes de serem substituídos pelos Aloutte III, que serão o verdadeiro “cavalo de batalha” da guerra, quer nas versões de transporte, quer na versão armada.

     

  • 05
      03/1966

    05/03/1966 - 

    Encerramento, em Luanda, da Sociedade Cultural de Angola.

    A Sociedade Cultural de Angola tinha sido fundada em 1942, por Cruz Malpique.

    A sociedade editava o jornal Cultura, um veículo para os escritores, poetas e ensaístas de Angola tratarem temas angolanos. Muitos destes intelectuais faziam parte de movimentos culturais e políticos que se desenvolveram a partir do final da II Guerra Mundial, como o Descobrir Angola, Mensagem e Cultura e alguns pagaram essa participação com a prisão no campo de concentração do Tarrafal, outros seguiram a via da guerrilha.

    Este movimento, que percorreu as cidades de Angola para discussão de temas angolanos, ficou conhecido como “Movimento dos Novos Intelectuais de Angola”.

    Apesar das dificuldades causadas por problemas políticos, o início dos anos 60 foi caracterizado pelo aumento de publicações de autores angolanos. Nesse período foram publicadas obras de Mário António, Arnaldo Santos, Viriato da Cruz, António Cardoso, Costa Andrade, Manuel Lima, Agostinho Neto, António Jacinto e Alexandre Dáskalos. Com o agravamento da Guerra Colonial, o poder colonial endureceu o seu controlo e, através da PIDE, começou a encerrar as actividades das agremiações culturais, prendendo e ameaçando os seus principais dirigentes. Desse modo foram fechados em Luanda a Sociedade Cultural de Angola, o Cine Clube de Luanda e a Associação dos Naturais de Angola, enquanto que em Portugal, a Casa dos Estudantes do Império (CEI) e a Sociedade Portuguesa de Escritores também tiveram as suas actividades proibidas.

    O encerramento da Sociedade Cultural de Angola tinha sido ordenado por portaria. O recurso apresentado pelos dirigentes da sociedade a solicitar a anulação da portaria só viria a ser apreciado em Conselho do Governo de Angola em 26 de Outubro de 1974!

  • 06
      03/1966

    06/03/1966 - 

    Operação Hermínia – Primeira operação helitransportada na Guiné.

    A Operação Hermínia, realizada em Jabadá, na zona Tite, foi a primeira operação helitransportada realizada na Guiné. Esta operação foi levada a cabo pelo grupo de Comandos “Os Diabólicos”. A operação teve origem na informação da existência de dois núcleos de “moranças” (aldeamentos), uma a norte, com população, e outra, cerca de 300 metros a sul, com elementos armados. O reconhecimento aéreo confirmou a disposição das casas.

    Relatório sumário:

    “Às 13h00, saíram da base de Bissalanca, 6 Alouette III, com 5 elementos cada. Às 13h20, 3 equipas foram largadas no núcleo norte, enquanto as outras foram lançadas no núcleo sul.

    O IN não reagiu nem à aproximação nem à descida dos hélis. Do núcleo norte, enquanto se viam elementos INs a fugirem, foram feitos disparos de armas automáticas. Foi atingido mortalmente um elemento do grupo. Uma equipa assegurou a evacuação, sinalizando e fazendo a segurança próxima ao héli. Os restantes elementos prosseguiram a acção, entrando nas moranças. Vários mortos no local, 8 prisioneiros.

    Destruíram-se quantidades apreciáveis de arroz e abateram-se cerca de 20 vacas. No regresso a Jabadá, junto à orla da mata, avistaram-se mais casas. Os T6 atacaram com rockets, depois o grupo entrou, vasculhando-as.

    O IN acompanhou a retirada do grupo, com tiros de morteiro e rajadas, de muito longe. Deram entrada em Jabadá às 16 horas e foram embarcados de regresso a Bissau nos Alouettes III”.

     

     

     

  • 13
      03/1966

    13/03/1966 - 

    Fundação da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), chefiada por Jonas Savimbi.

    No início de 1966 Jonas Savimbi fundou o CURA (Comité da Unidade Revolucionária Angolana) e pouco depois a UNITA, a 13 de Março, no lugar de Tchocué, do Muangai, no distrito do Moxico. Já antes, em Fevereiro, adeptos de Savimbi se tinham infiltrado no distrito do Moxico com a finalidade de aliciarem as populações do vale do rio Lungué-Bungo. Estas acções de aliciamento foram acompanhadas por actividades de guerrilha de baixa intensidade com a destruição de pontes e ataques a civis e a viaturas isoladas. Os elementos da UNITA revelavam fraca preparação militar, débil organização e mau armamento.

    Durante o ano de 1966 os elementos da UNITA surgiram um pouco por todo o distrito do Moxico. A sua principal acção foi aliciarem os chefes tradicionais, por vezes com recurso a terrorismo selectivo.

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