1966 - Construir um bastião branco na África Austral

1966
O MPLA no Leste de Angola

Para o Leste em força!

Desde a independência da Zâmbia que o MPLA procurou instalar as suas bases de apoio e de retaguarda neste país.

Em 1965, conseguiu o acordo do Governo de Kenneth Kaunda e instalou-se junto à fronteira com Angola. Em Abril 1966, transferiu cinco destacamentos do Congo-Brazzaville para a Zâmbia, os quais se foram infiltrando em território angolano, abrindo a frente leste.

Também a UNITA desencadeou as primeiras acções de aliciamento no Leste, em 1966. A princípio, no distrito do Moxico, excepto no saliente do Cazombo, que era território dominado pelo MPLA, as acções da UNITA foram-se estendendo para o Sul da Lunda até à região do Munhango, perto do Luso.

A FNLA, por sua vez, tinha aberto em 1964 uma delegação na Zâmbia, mas,devido à pouca aceitação que obteve entre os quiocos da região do Moxico, que possuíam fortes ligações aos povos do Catanga, foi obrigada a retirar-se para o território do Congo, o seu grande aliado. Abriram um escritório em Dilolo, junto à zona diamantífera da Lunda. A sua actividade nesta região limitar-se-ia, ao longo dos anos, a alguns raptos de populações ligadas ao garimpo de diamantes e a grupos de quiocos.

 

As planícies de savana do Leste de Angola permitiram a utilização de tropas a cavalo pelas forças portuguesas. [AMD]

 

O Leste, uma complexa rede de interesses

A partir de 1966, o Leste será uma complexa zona de operações onde, aparentemente, decorre uma luta entre três contendores: as Forças Armadas Portuguesas, o MPLA e a UNITA.

Estes três actores constituem, contudo, apenas a face visível da verdadeira guerra que se travou na região. Na realidade, todos eles combateram no Leste considerando que não é aquele o campo que escolheram para combater, mas o que as circunstâncias lhes impuseram.

 

A diferença de objectivos no Leste de Angola, entre o Estado Português e as Forças Armadas Portuguesas

Para perceber o que se passou no Leste de Angola, a partir de 1966, é necessário dissociar os objectivos do que designamos por Portugal, com o significado de reunião de interesses políticos e económicos no topo do Estado Português, e os objectivos das Forças Armadas Portuguesas, determinados pelos comandantes das tropas em operações em Angola.

Para Portugal, isto é, para o Estado Português, com Governo em Lisboa presidido pelo professor António Salazar, o Leste de Angola era a Diamang, a Companhia Mineira do Lobito (minas de Cassinga) e o Caminho-de-Ferro de Benguela, fontes de receitas e de relações com a alta finança mundial as duas primeiras e instrumento de pressão sobre a Zâmbia o terceiro. Os interesses de Portugal, do ponto de vista do Governo português, no Leste de Angola, eram garantir o funcionamento em segurança destas três grandes empresas.

 

A Diamang, ou a ligação ao grande comércio internacional através dos diamantes

Na década de sessenta, e até 1970, a concessionária da exploração de diamantes de Angola, a Diamang, produziu 36,7 milhões de carates, sete mil carates por dia, e 2,5 milhões de carates em 1972. Nessa época, a média do valor do carate era de 140 a 180 dólares americanos. Portanto, um valor de cerca de 500 milhões de dólares anuais.

A Diamang era proprietária de uma concessão de mais de um milhão de quilómetros quadrados, 81% do território de Angola!

Pagava ao Estado Português anualmente 40% do lucro líquido. Era também um banco de empréstimos a baixo juro. Em 1962, emprestou ao Estado Português 150 mil contos (50% dos lucros anuais) a 1%.

A Diamang era ainda uma multinacional na qual estava representada a De Beers, a maior empresa de exploração e comercialização de diamantes do mundo, dominada pela família sul-africana Oppenheimer, de origem judaica. Embora a Diamang tivesse polícia e segurança próprias, o Estado Português não podia deixar de assegurar a continuação dos seus negócios.

 

Monumento ao comandante Ernesto Vilhena, presidente da Diamang. [Livro Companhia dos Diamantes de Angola, 1963]

 

 

A Companhia Mineira do Lobito – uma defesa especial para a maior jazida de ferro do mundo

O minério de ferro era explorado no Leste de Angola desde 1956 pela Companhia Mineira do Lobito, controlada pelo grupo alemão ocidental Krupp, com capitais do português Champalimaud, belgas e austríacos. Os filões de ferro de Cassinga e de Serpa Pinto são provavelmente as mais ricas reservas de ferro do mundo.

Em 1971, a produção foi de 6,2 milhões de toneladas, cerca de 38 milhões de dólares, e em 1973 foi aberta a exploração do anexo de Cassala (mais nove milhões de toneladas).

As minas de Cassinga foram sempre objecto de grande atenção por parte das autoridades portuguesas. O dispositivo militar português considerou sempre como sectores relevantes aqueles onde se encontravam as minas. Durante a fase mais intensa da cooperação entre as Forças Armadas portuguesas e sul-africanas, através dos Destacamentos de Cooperação, os sul-africanos colocaram uma companhia a garantir a segurança de Cassinga. Já depois da independência de Angola, as duas grandes operações dos sul-africanos no Sul de Angola foram na região das minas – operações Carlota e Savanah.

 

O Caminho-de-Ferro de Benguela: dominar a Zâmbia

Entre os diamantes e o ferro corria o Caminho-de-Ferro de Benguela, a mais importante via de comunicação entre o interior – a Lunda, o Catanga e a Zâmbia – e o mar. O caminho-de-ferro fazia a ligação das grandes minas ao porto do Lobito. Era uma via essencial para as economias da região do centro de África. Uma alternativa mais barata e mais fiável ao caminho-de-ferro da Tanzânia construído pelos chineses.

 

A pressão das administrações

As administrações destas três grandes empresas tinham fortes ligações ao Governo português. O administrador delegado da Diamang, desde a sua fundação nos anos 20, foi o comandante Ernesto Vilhena, um homem da absoluta confiança de Salazar. Também fizeram parte da administração nomes conhecidos do regime, como o embaixador Calvet de Magalhães e o antigo ministro Marcelo Matias. Franco Nogueira foi administrador dos Caminhos-de-Ferro de Benguela (e também do grupo Espírito Santo), após sair do Governo e pela administração da Companhia Mineira do Lobito passaram ex-ministros como Mota Veiga e altos dirigentes da União Nacional, como Fernando Sá Viana Rebelo. Estas administrações aproveitavam as suas relações e influência para defenderem as suas empresas.

A importância estratégica que foi dada ao Leste de Angola, traduzida na quantidade e qualidade dos meios materiais e humanos que ali foram colocados, é resultado da acção dos representantes desses interesses e pouco tem a ver com a análise da situação feita pelos militares. Se coincidiram, foi por acaso.

 

Retrato do Leste

Quanto ao inimigo, cinco destacamentos do MPLA não eram razão suficiente para alterar radicalmente o dispositivo e a estratégia que vinham a ser seguidos. Quanto ao terreno, o Leste de Angola englobava os distritos do Moxico, da Lunda, do Bié, do Cuando-Cubango e o Sul de Malange. Fazia fronteira a norte com a República do Congo, a leste com a Zâmbia e a sul com a Namíbia/África do Sul, embora fossem fronteiras convencionais, sem outra razão, física, histórica ou étnica, do que a da divisão de África acordada na Conferência de Berlim de 1884-85.

A superfície deste território era de 666.500 quilómetros quadrados (sete vezes e meia a superfície de Portugal), habitado por 1 370 000 pessoas, pertencentes a povos de culturas e tradições muito diferentes, dos quais os mais importantes eram os quiocos, que tinham ligações com o Catanga e a Zâmbia, os guenguelas, povos que tinham combatido as penetrações europeias desde sempre e os Luenas. A sul, viviam povos de pastores e os hereros, também conhecidos por bosquímanes, ou hotentotes. No Centro, existiam grandes comunidades de ovimbundos, o grupo mais numeroso entre os que habitam o território de Angola.

Cada um destes povos tinha uma história diferente de relacionamento com os portugueses, que variava desde a confrontação violenta à quase ausência de contactos. A vegetação da maior parte deste imenso território, quase todo um planalto, é a savana, com plantas dispersas e o terreno coberto de erva baixa, uma paisagem de planície sem fim, conhecida como “chana”. Apenas nos altos do Cassai e na transição do Moxico para o Bié surgem algumas florestas.

Este terreno era mais favorável à manobra dos militares portugueses do que a floresta do Norte, porque grandes distâncias e terrenos abertos dificultam a ocultação dos guerrilheiros e as suas deslocações. Exigiam, contudo, grande mobilidade às forças convencionais. Por isso, o Leste foi o espaço para a guerra dos helicópteros, para a experiência das tropas a cavalo, pelo lado português, e a baixa densidade populacional (2 habitantes/Km2), as pequenas e expostas povoações dificultaram a dissimulação dos guerrilheiros entre a população.

 

Em busca de água na chana do Leste de Angola. [AAC]

 

O que o Leste escondia

Se o Leste fosse o que estava à vista desarmada não passaria de um mar, ou de um deserto, que poderia ter importância como espaço de trânsito entre uma e outra região, mas que não valeria a batalha que ali se travou.

As mais importantes riquezas minerais de Angola são o petróleo, os diamantes e o ferro. Os diamantes e o ferro encontram-se no subsolo do Leste e foi por causa deles que a guerra decisiva dos militares portugueses em Angola se travou aqui.

 

O Leste para os militares portugueses

Às Forças Armadas Portuguesas competiu traduzir a importância estratégica que o Governo atribuiu ao Leste em acções operacionais.

Foi relativamente lenta e irregular a tradução no terreno da alteração da prioridade do esforço do Norte de Angola para o Leste. Essa lentidão pode ter a ver com a natural resistência à mudança, já que os militares se tinham “habituado” a combater no Norte, mas tem a ver também com a análise objectiva da situação e das informações.

De qualquer forma, o Leste só terá clara prioridade como zona decisiva com a criação da Zona Militar Leste e a acção de Costa Gomes como comandante-chefe, a partir de meados de 1970.

 

Acampamento de guerrilheiros no Leste de Angola. [AAC]

 

O Leste e o MPLA

Para o MPLA, a escolha do Leste como palco principal da sua guerra foi uma inevitabilidade – só a Zâmbia estava em condições políticas e, principalmente, geográficas de apoiar militarmente essa opção. O Congo-Brazzaville situava-se na costa atlântica, por onde era difícil receber material dos países de Leste, além de que para ir do Congo-Brazzaville a Angola era necessário atravessar Cabinda e a foz do rio Zaire. Quanto ao Congo-Leopoldville, era governado por Mobutu, que apoiava a FNLA. A Zâmbia, por seu lado, apresentava a vantagem da ligação à Tanzânia e, através desta, ao Índico, onde, a partir de Dar es Salaam, já funcionava o sistema de apoio à FRELIMO, que podia ser duplicado para o MPLA. Para assegurar o apoio da Zâmbia, bastava ao MPLA não interferir com o Caminho-de-Ferro de Benguela.

A UNITA e a PIDE encarregaram-se de efectuar acções sobre o caminho-de-ferro, tentando lançar a responsabilidade sobre o MPLA, com o intuito de o prejudicarem e de limitarem o apoio da Zâmbia. O objectivo do MPLA não era implantar-se no Leste e menos ainda eleger o Leste como a sua zona de esforço principal. Agostinho Neto sabia muito bem que era em Luanda e à volta de Luanda que tinha de medir forças com a FNLA e que ele e Holden Roberto (Savimbi ainda não contava) tinham de mostrar serviço aos respectivos patrocinadores.

Daí que a rota com o seu nome fosse apenas um eixo de penetração para chegar a Malange, a sua IV Região Militar. Aí sim, podia estabelecer uma base melhor que a dos Dembos, para ameaçar a capital e suplantar a FNLA. O problema militar do MPLA no Leste era conseguir passar sem grandes perdas pelas imensas “chanas” que vão da fronteira até as faldas das serras do Bié, sem os seus guerrilheiros serem detectados e eliminados, como acabaram por ser. Daí que o MPLA tenha procurado progredir para Oeste sempre apoiado nos cursos de água, nos rios Cassai, Luena e Lungué-Bungo, onde se travaram a maior parte dos recontros com as forças portuguesas.

 

 

A UNITA

Para a UNITA, o que queria dizer Savimbi, o seu único objectivo depois de ter saído da FNLA era o de se implantar como dirigente de um movimento de libertação para depois negociar a sua aliança com quem lhe oferecesse melhores condições. A desestabilização do Leste era o seu grande trunfo para ganhar um lugar ao redor da mesa onde se jogava o poder. Savimbi só tinha a ganhar, mesmo que não fizesse mais que atirar pedras e justificar a repressão militar com a sua mera existência. Ele era aquele que nada tinha a perder.

 

A derrota do MPLA no Leste

A grande derrota do MPLA foi não ter conseguido abrir e manter a Rota Agostinho Neto de acesso a Malange e, pior ainda, de não ter conseguido estabelecer uma linha de reabastecimento a partir da Zâmbia.

 

A vitória do MPLA no Leste

A grande vitória do MPLA no Leste foi ter conseguido transformar metade de Angola numa zona de operações, de ter trazido a guerra a metade do território. E mais, de ter obrigado as forças e as autoridades portuguesas a confrontarem-se com as populações, forçando-as ao aldeamento compulsivo, à alteração de hábitos, o que não ajuda a conquistar almas e corações, como é o objectivo da contra-subversão, muito pelo contrário, levanta ressentimentos que se materializarão no futuro.

 

A vitória militar dos portugueses no Leste – a vitória de Pirro

Alguns analistas têm vindo a defender a tese da vitória militar no Leste. É uma análise mais ideológica do que técnica e que, por razões de defesa da política colonial de continuação da guerra, quer fazer esquecer, entre muitos outros factores, que essa proclamada vitória foi conseguida com a colocação naquela zona de 30 000 militares, os quais, depois da dita vitória, não podiam de lá sair, sob o risco de a vitória se desvanecer. Isto é, a “vitória militar no Leste” provocou o empenhamento permanente de 30 000 efectivos entre os vitoriosos, o que não deixa de ser um vitória de Pirro.

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