1966 - Construir um bastião branco na África Austral

1966
África do Sul - Potência regional

Vorster

John Vorster (nome completo: Baltazar Johannes Vorster) era dirigente do New National Party, tal como Verwoerd. No tempo da II Guerra Mundial tinha sido militante de uma organização pró-nazi e preso por se opor ao apoio da África do Sul aos Aliados, fora ministro da Justiça, da Polícia e das Prisões e partilhava a mesma visão de Verwoerd da supremacia branca. Vorster manter-se-ia no cargo até 1978, quando foi obrigado a resignar na sequência de um escândalo político que envolvia a utilização ilegal de fundos públicos para manipular a imprensa nacional e internacional de modo a esta favorecer o apartheid. Vorster será o primeiro-ministro da África do Sul durante os anos da Guerra Colonial portuguesa, mantendo com os governos de Salazar e de Marcelo Caetano relações de cooperação que serviam a estratégia da África do Sul de assegurar um grande espaço de supremacia branca ao sul do Equador. Nesta estratégia foi apoiado por Pik Botha, o seu ministro da Defesa, que conduziu uma política marcada por numerosas intervenções militares nos estados vizinhos da África do Sul, nomeadamente Angola e Moçambique, tentando eliminar a SWAPO que lutava pela independência da Namíbia.

 

O regime de apartheid

No regime de apartheid, a população da África do Sul estava dividida em quarto grupos raciais: brancos, negros, mestiços e asiáticos. Só os brancos eram considerados “civilizados” e por isso possuíam a totalidade dos direitos e do controlo do Estado.

A política interna de Vorster será caracterizada pelo aprofundamento da “política de desenvolvimento separado” e a criação de zonas semi-autónomas para os negros, os Bantustões que forçaram nos anos sessenta o deslocamento de mais de 2,5 milhões de negros para as áreas mais pobres do país.

Aviso para uso exclusivo de brancos, em inglês e afrikander. [Apartheid Museum Ormonde, Joanesburgo]
“Banco para brancos”. [Apartheid Museum Ormonde, Joanesburgo]

 

 

 

 

 

 

A política de defesa da África do Sul

A política de defesa e externa da África do Sul foi orientada para a criação de uma capacidade autónoma com o desenvolvimento de indústrias capazes de produzir toda a panóplia de armas e equipamentos, incluindo o armamento nuclear.

 

A África do Sul potência nuclear

O programa nuclear da África do Sul teve início em 1969 e foi conduzido pela empresa nacional de armamentos ARMSCOR com o apoio de Israel. Em 1973, segundo um relatório dos Estados Unidos, a África do Sul tinha lançado formalmente um programa de armas nucleares e os seus cientistas tinham recebido instruções para desenvolverem o processo de montagem de armas termonucleares.

O programa nuclear da África do Sul era oficialmente apresentado como sendo para fins pacíficos e incluía a realização de explosões nucleares (PNE – Peaceful Nuclear Explosions) e foi desenvolvido em estreita cooperação com Israel, a quem a África do Sul fornecia barras de urânio empobrecido.

Este programa de desenvolvimento de capacidade nuclear por parte da África do Sul foi condenado por uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas em 1970, mas não impediu o seu prosseguimento.

 

A política de alianças da África do Sul e Portugal

A condenação generalizada do regime de apartheid e o seu isolamento internacional, pelo menos nos seus aspectos mais públicos, levaram a África do Sul e os seus dirigentes, como o primeiro-ministro Vorster e o ministro da Defesa Pik Botha, a procurarem alianças estratégicas com regimes de outros Estados também marginalizados, como era o caso de Israel, de Portugal, da Pérsia e da Rodésia. No caso da capacidade para a produção de armamentos de alta tecnologia, Israel foi o aliado principal para o seu fornecimento, quer se tratasse de patentes próprias, quer de produtos fabricados sob licença. E não deixa de ser significativo que entre dirigentes vindos das fileiras pró-nazis como foram Vorster e Botha e os dirigentes do Estado judaico tenham sido mantidas tão estreitas e amigáveis ligações. As relações da África do Sul com Portugal revestem-se de particular delicadeza. A África do Sul sabia que Portugal não podia manter indefinidamente a situação colonial de domínio dos seus territórios, mas também não tinha condições para provocar uma alteração radical em Angola e Moçambique, incentivando independências brancas. A solução encontrada pela África do Sul foi ganhar força militar e autonomia para garantir a sua sobrevivência e servir, simultaneamente, de apoio às acções de Portugal em Angola e em Moçambique, enquanto assegurava o reabastecimento logístico à Rodésia.

Embora dotada de capacidade militar industrial para produzir armamentos convencionais que incluíam toda a panóplia de armas terrestres, aéreas e navais e dotada de capacidade nuclear, a África do Sul teve sempre consciência de que Portugal era o elo fraco da estratégia que gizara para manter o domínio branco na África Austral. Portugal, pelo seu lado, nunca conseguiu construir uma alternativa ao regime do apartheid. O conceito de estado pluricontinental e multirracial de Salazar e de Franco Nogueira dos primeiros anos da década de 60 e o conceito de autonomia progressiva de Marcelo Caetano nunca tiveram a mínima consistência nem viabilidade.

Foi o vazio das propostas que constituíam o núcleo da “política ultramarina” do regime que o levaram à sujeição à estratégia da África do Sul e às alianças mais ou menos envergonhadas com Estados marginais do sistema político internacional.

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