1967 - África para sempre: Cahora Bassa

1967

Armamento das Forças Portuguesas

A situação em 1960

O armamento e equipamento do Exército Português no início da década de 60 era composto por material adquirido no final dos anos 30, perante a situação criada pela Guerra Civil Espanhola e pelo início da II Guerra Mundial; essencialmente de origem alemã (espingardas Mauser, metralhadoras ligeiras Dreyse e Borsig, obuses de 10,5cm) e italiana (metralhadoras Breda, obuses 7,5cm), material recebido da parte dos Aliados, sobretudo contrapartidas da utilização dos Açores. Este era principalmente material pesado (obuses de 8,8cm e 14cm, peças de 11,4cm, peças AA de 4cm e 9,4cm), material recebido após a entrada na NATO (canhões sem recuo de 57mm, 75mm e 106mm, metralhadoras de 12,7mm, morteiros de 60mm, 81mm e 107mm, viaturas blindadas e carros de combate). Este último material tinha restrições de emprego, pois não poderia ser utilizado fora da área da NATO (até ao trópico de Câncer).

A tendência dentro da NATO para a uniformização dos calibres (7,62mm para as armas ligeiras, 10,5cm e 15,5cm para os obuses), bem como a necessidade de dotar as tropas com uma espingarda automática ou semi-automática que substituísse a “veneranda” Mauser de repetição, tinha levado a estudar a hipótese da adopção (inclusive o fabrico nacional) de uma nova arma, tendo sido considerada, entre outras, a AR-10 Armalite (que viria a ser adoptada, unilateralmente, pelas tropas Pára-quedistas). No entanto, em 1960 ainda não tinha sido tomada qualquer decisão sobre o assunto.

Entretanto, razões de estandardização e interoperabilidade, aliadas à obsolescência de algum material, levaram ao enviopara as colónias das armas mais antiquadas. São exemplos as espingardas e metralhadoras de calibre de 7,7mm e os obuses de 7,5 e de 8,8cm, de que havia dificuldade na obtenção de munições.

 

Armamento da guerra

Espingardas

As primeiras operações revelaram, logo de início, em qualquer dos três teatros, a falta de uma arma automática. Em Angola, os ataques em massa não podiam ser eficazmente contrariados com armas de repetição; na Guiné e em Moçambique, os guerrilheiros dispuseram, desde o princípio, de armas automáticas que lhes davam nítida vantagem sobre algumas das unidades portuguesas.

Assim, a prioridade em 1961 foi a obtenção imediata de armas automáticas, mas tendo em atenção a necessidade de garantir o fluxo de abastecimento de armas e sobressalentes, o que só poderia ser plenamente conseguido através do fabrico nacional. Duas armas pareciam corresponder aos desideratos operacionais então formulados: a FN, de origem belga, e a G-3, de origem alemã. Quanto às munições, não havia problema, porquanto o cartucho de 7,62mm NATO era já fabricado em Portugal e exportado em larga escala, sobretudo para a RFA.

Foram adquiridos inicialmente dois lotes destas duas armas, que foram testadas em operações tendo sido concluído, de modo genérico, que as FN eram mais robustas e de mais fácil transporte, mas o sistema de regulação de gases levantava problemas com pessoal pouco instruído, as G-3 tinham mais precisão, mas o sistema de travamento por roletes tinha tendência a quebrar. No entanto, as duas armas foram consideradas como satisfazendo os requisitos operacionais.

 

Soldado com espingarda Mauser. [AHM]

 

Embora na época qualquer fornecimento de material militar a Portugal fosse melindroso, no tocante ao fabrico a decisão tenderia naturalmente para a opção alemã, entre outras razões pelo grande volume de transacções já existente entre a Alemanha e Portugal. O fabrico das armas em Portugal ficou decidido ainda em 1961, saindo as primeiras armas 15 meses depois, em fins de 1962. Foi determinante a transferência de tecnologia e a assistência à produção, que permitiram, a partir de 1962, a produção de canos e carregadores. Para acorrer às necessidades imediatas, a RFA prontificou-se a ceder, dos seus stocks, 15 000 FN/FAL usadas, sem restrições de emprego, a serem utilizadas por Portugal, devendo ser devolvidas à RFA, depois de beneficiadas, à medida que fossem fabricadas as G-3.

Quanto às FN, foram adquiridas armas directamente à fábrica, ou através de outros utilizadores, como a África do Sul, que cedeu 12.500 armas dos seus próprios stocks.

A produção de G-3 julgada necessária em Junho de 1961 era de 105 000 armas, sendo 75 000 para a Metrópole e 30 000 para o Ultramar. O conceito inicial era de manter na Metrópole o número de armas destinadas à instrução e ter em depósito as necessárias para equipar as unidades mobilizadas. O futuro se encarregaria de inverter esta distribuição.

É curioso notar que só por despacho de 18 de Setembro de 1965 do CEMGFA a G-3 foi considerada “arma regulamentar”.

 

Coluna de militares no capim com a espingarda FN em primeiro plano. [AHM]

 

Metralhadoras

As metralhadoras existentes em 1960 eram a Dreyse, a Borsig e a Breda alemãs e a Madsen dinamarquesa, todas elas de 7,9mm, e a Browning americana de 12,7mm, como arma antiaérea e antimaterial. Mesmo as mais ligeiras destas armas tinham o inconveniente do peso e a adopção do calibre 7,62mm complicou a logística e consequentemente as operações, com duas munições diferentes nas unidades elementares.

A primeira solução encontrada foi a utilização das versões com bipé das espingardas automáticas (e na FN com cano reforçado) como metralhadoras ligeiras. Assim, as primeiras aquisições de FN e de G-3 incluíam modelos com bipé em proporções que variavam entre 1:6 e 1:4; mas estas armas não garantiam nem o volume nem a continuidade do fogo, pois não tinham alimentação por fita nem canos de reserva.

 

Soldado com espingarda metralhadora FN com cano reforçado. [AHM]

 

Foram depois adquiridas 1200 metralhadoras MG-42 na RFA, completadas com a cedência de mais 500. Eram verdadeiras metralhadoras, alimentadas por fita e com canos substituíveis, e foram as preferidas pelas tropas desde asua adopção.

A procura de uma arma automática de secção, de preferência tendo o máximo de componentes comuns com a espingarda automática (por razões logísticas), levou à adopção da metralhadora ligeira HK-21. A sua produção foi proposta pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) em Abril de 1967, com um objectivo de 4000 armas em menos de dois anos; de facto, as primeiras unidades foram distribuídas logo em 1968 às companhias mobilizadas.

Esta metralhadora baseava-se na G-3, tendo cano substituível e alimentação por fita. Portugal foi o primeiro país a adoptar esta arma, e de certo modo pagou a factura das suas “doenças infantis”, que não a tornou popular entre as tropas.

As demais metralhadoras continuaram a ser utilizadas em montagens veiculares e na defesa de aquartelamentos, nomeadamente montadas nos suportes de tiro antiaéreo, o que lhes dava melhor flexibilidade de emprego.

 

Pistolas-metralhadoras

Na orgânica anterior a 1960, as pistolas-metralhadoras (PM) tinham uma distribuição relativamente elevada (uma por secção de atiradores e como arma de autodefesa de outras especialidades). Existia mesmo uma PM de concepção nacional, a FBP de 9mm m/947, que tinha o inconveniente de só fazer tiro automático. Este problema foi resolvido com o novo modelo (m/961) que podia fazer tiro automático e semi-automático.

 

Jipe com uma metralhadora Breda. [AJP]

 

A adopção de uma espingarda automática relegou as PM para segundo plano, porque obrigava a dois calibres nas unidades elementares, identificava os comandantes a quem estava normalmente distribuída, dificultava a destrinça entre combatentes a curta distância (PM dos dois lados) e tinha menor efeito neutralizante.

Apesar disso, foram adquiridas PM, quer importadas (UZI de concepção israelita), quer de produção nacional (FBP m/961). Foram empregues essencialmente na defesa de instalações, e nas forças de segurança e de autodefesa.

 

Militares com pistolas-metralhadoras. [AJP]

 

Lança-granadas

Na falta de uma arma de apoio próximo, do tipo das granadas de espingarda já vulgarizadas, a solução encontrada foi original: o DILAGRAMA (Dispositivo de Lançamento de Granadas de Mão). Tratava-se de uma granadade mão defensiva m/963, montada num suporte com um encaixe oco que se adaptava no cano da G-3. No seu lançamento era usado um cartucho de salva (sem bala), fornecido junto. Para o disparo era necessário tirar o carregador e introduzir manualmente o cartucho de salva; este “compasso de espera”, com a agravante de impedir temporariamente o uso da espingarda, aliado ao risco do manuseamento, tornaram esta arma pouco popular.  Os lança-granadas-foguete (vulgo bazuca), de que existiam modelos de 6cm e de 8,9cm, foram extensivamente empregues, apesar de só disporem de munições anticarro (HEAT), consequentemente de pouco efeito antipessoal, o que era compensado pelo forte efeito neutralizante da sua potente granada. Aliás, dado o grande número de lança-granadas RPG-2 e RPG-7 dos guerrilheiros, impunha-se uma resposta equivalente. A falta de um lança-granadas-foguete antipessoal foi colmatada também com o engenho nacional. Desta vez, através de um sistema de lançamento ao ombro de um foguete originalmente concebido para tiro ar-solo: o rocket de 37mm.

Desenvolvida em Angola, esta arma foi muito utilizada também na Guiné. Mais leve que a Bazuca, de munições mais baratas e fáceis de obter, tornou-se uma arma de largo emprego.

 

Carregamento de um LGF 8,9cm (Bazuca) [DGART-TT-SNI]

 

Canhões sem recuo

Os canhões sem recuo (CSR) não foram praticamente utilizados pelos militares portugueses, ao contrário dos movimentos que usaram extensivamente os CSR de 82mm, sobretudo nos ataques a aquartelamentos. No entanto, chegaram a ser constituídos Pelotões de CSR 57mm para a Guiné; note-se que estes CSR foram adquiridos antes da entrada de Portugal para a NATO,  não tendo portanto restrições de emprego.

 

Soldado com metralhadora MG-42. [CD-DN]

 

Morteiros

O emprego eficaz dos morteiros (como da Artilharia) pressupõe um bom suporte cartográfico e a observação do tiro. Durante todo o tempo da guerra, nenhum destes desideratos foi plenamente atingido, pelo que o apoio próximo das tropas não foi eficientemente conseguido. Assim, os morteiros de maiores calibres (81mm e, mais tarde, 120mm) foram essencialmente empregues em flagelações e reacções aos ataques a aquartelamentos.

Pelo contrário, os morteiros de 60mm foram largamente empregues, sobretudo no apoio imediato das tropas, colmatando assim a falta já assinalada de um lança-granadas eficaz. Os morteiros eram transportados pelos grupos de combate, sem tripé nem prato-base, baseando-se a pontaria na experiência do apontador.

Posteriormente foi desenvolvido o morteirete de 60mm, constituído apenas pelo tubo normal com uma bandoleira na qual estavam fixadas chapas com números correspondendo aos alcances; bastava ao apontador fixar com o pé a distância pretendida e esticar a bandoleira para obter, com aproximação razoável, o tiro sobre o objectivo.

 

Militar com morteiro de 60mm. [AHM]

 

Conclusões

O eclodir da guerra, se não apanhou o Exército completamente desprevenido, apanhou-o mal equipado; e a situação política internacional complicou ainda mais a obtenção, agora urgentíssima, de armamento que, a bem dizer, já estava vulgarizado – e até ultrapassado – noutros exércitos europeus. Para isso, houve que recorrer aos fornecedores acessíveis e de improvisar, a nível interno.

É de salientar o esforço feito pela Fábrica Militar de Braço de Prata (FBP) ao conseguir em meses a produção de componentes da espingarda G-3 e, em pouco mais de um ano, a arma completa; bem como a produção da HK-21 em 15 meses, com todos os problemas de transferência de tecnologia, aquisição de maquinaria, preparação de pessoal e também a criatividade demonstrada, quer na produção de materiais novos (DILAGRAMA, lança-rockets, morteirete), quer na adaptação e manutenção do velho material existente, sobretudo viaturas blindadas, tudo a par da criação de doutrina táctica e de técnicas de emprego.

 

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