1967 - África para sempre: Cahora Bassa

1967

Projectos em África: Cahora Bassa e Cunene

Guerra dos Seis Dias

Neste ano, a nível internacional, a crise mais aguda produziu-se como consequência da Guerra dos Seis Dias, entre Israel e a coligação árabe formada pelo Egipto, Jordânia, Iraque e Síria, a que se juntaram mais tarde, de forma mais simbólica do que efectiva, a Argélia, Iémen, Sudão e Kuwait. Os antecedentes mais próximos da guerra remontam a 17 de Maio, quando o Egipto solicitou formalmente à ONU que as tropas de interposição situadas na sua fronteira com Israel fossem retiradas, ao mesmo tempo que militarizava o Sinai e essa fronteira. Os aliados do Egipto puseram as suas tropas em estado de alerta e todas as partes do conflito chamaram os seus reservistas. Além disso, a 22 de Maio, o Egipto anunciou o bloqueio do golfo de Aqaba para os barcos israelitas e para aqueles que transportassem material estratégico para aquele Estado.

Foi então que Israel decidiu desencadear as hostilidades, depois de os seus generais terem afirmado que a guerra era inevitável e que, assim, disporiam de vantagem estratégica. Com essa finalidade, a 1 de Junho, o primeiro-ministro, Levi Eshkol, constituiu um gabinete de unidade nacional, no qual se destacava como ministro da Defesa, Moshe Dayan. Às 6h30 da manhã de 5 de Junho, e sem prévia declaração de guerra, o Governo de Telavive ordenou a destruição da Força Aérea egípcia, o que conseguiu em grande medida, ao neutralizar 268 aviões em terra, dos 420 existentes, deixando também inutilizadas as bases aéreas mais importantes e as estações de radar.

Paralelamente, o Exército hebreu apoderou-se de cidades e enclaves estratégicos no Sinai e em Gaza. E nesse mesmo dia destruiu também grande parte da Força Aérea jordana. Os cinco dias seguintes de combate desenrolaram-se sob total superioridade aérea israelita, o que ajuda a explicar a sua estrondosa vitória. A Guerra dos Seis Dias terminou a 10 de Junho, quando Israel e a Síria, o último país árabe a depor as armas, aceitaram a proposta do Conselho de Segurança da ONU para cessar as hostilidades. As consequências da derrota árabe foram terríveis para os palestinianos, pois Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental foram ocupados por Israel, que iniciou de imediato a colonização dessas terras, afastando e reprimindo a sua população sem contemplações. Também o Egipto perdeu a península do Sinai e a Síria perdeu os Montes Golan.

O apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel foi o início do anti-ocidentalismo em muitos países muçulmanos, e a derrota da Síria e do Egipto, aliados da URSS, mostraram as debilidades soviéticas no contexto da Guerra Fria.

 

Grécia

Outro acontecimento de grande relevância foi o estabelecimento de uma ditadura militar na Grécia a 21 de Abril, quando um grupo de militares, sob o comando dos coronéis Georgios Papadopoulos e Nikolaos Makarezos e do brigadeiro Stylanos Patazos, tomou o poder em Atenas, decretando o estado de excepção, dissolvendo o Parlamento e proibindo os partidos políticos e os sindicatos. Na sequência, numerosos dirigentes políticos, especialmente de esquerda, foram presos e uma junta cívico-militar passou a dirigir o país. Cinco dias mais tarde, o rei Constantino II assumiu o novo gabinete, dando assim apoio institucional ao golpe, ainda que tenha afirmado que desejava o regresso da normalidade constitucional o mais rápido possível. Mas o rei, ao aceitar a ditadura com o seu cortejo de atrocidades, trilhava o caminho da sua destituição, mesmo tendo tentado, a 13 de Dezembro, um confuso contragolpe para derrubar o regime militar, sem êxito. Depois de neutralizar este golpe palaciano, a Junta reforçou o seu poder e o seu autoritarismo, designando como regente o general Georgios Zoitakis, enquanto Constantino II se exilava em Roma, para nunca mais voltar a reinar. Os coronéis justificaram o seu golpe com o objectivo de evitar que os comunistas tomassem o poder, o que não era verdade, pois nunca se encontrou o mais pequeno indício dessa situação. Na realidade, o que quiseram evitar foi a contundente vitória eleitoral da União do Centro e do seu líder, Georgios Papandreu. Os Estados Unidos e a NATO aceitaram o regime militar e só o Conselho da Europa, mas já em Dezembro de 1969, mais de dois anos depois do golpe, expulsou o país da instituição.

 

Che Guevara

Outra data relevante foi a de 9 de Outubro, dia da execução de Che Guevara, na pequena localidade boliviana de La Higuera (região de Valle Grande). A CIA, que assessorava o Exército da Bolívia, considerou que, com a sua execução, eliminava o problema que representaria a sua prisão. Che era uma figura lendária desde que tinha entrado em Havana, acompanhado de Fidel Castro, em Janeiro de 1959. E sempre se distinguiu pelas suas atitudes internacionalistas e algo românticas. Já entre Dezembro de 1964 e Fevereiro de 1965, tinha realizado um primeiro périplo africano, visitando Argel, onde instalou o seu quartel-general, e dali partiu para o Mali, Congo-Brazzaville, onde contactou com a direcção do MPLA, Guiné-Conacri, reunindo com a cúpula do PAIGC, Gana, Daomé e Tanzânia, onde participou em encontros com as guerrilhas sul-africanas da Namíbia, Zimbabwe e com a FRELIMO. Em Abril de 1965, tinha chegado a Dar es Salam para participar na guerra civil congolesa, ao lado do lumumbistas, agrupados no Exército de Libertação do Congo, com quem urdiu um plano para reconquistar o poder, com a participação de Cuba, que enviou um contingente de 120 afro-cubanos para reforçarem as diversas frentes de combate. No entanto, Che Guevara confrontou-se com o facto de a guerrilha estar muito dividida e imersa no caos e na indisciplina, não sendo raros os actos de feitiçaria. Tudo isto redundava numa evidente incapacidade militar, que invalidava todo o seu esforço e, por isso, ao fim de sete meses, a 21 de Novembro, abandonou a África. 

Em Julho de 1966 regressa a Cuba, com o objectivo de preparar o surgimento de um foco guerrilheiro na América Latina, que irradiasse depois para todo o continente. Assim, chegou à Bolívia a 3 de Novembro e, pouco depois, entrevistou-se com o secretário-geral do PC boliviano, Mário Monge, que lhe disse que não apoiaria a guerrilha. A partir de 15 de Março de 1967, depois da deserção de dois guerrilheiros bolivianos, o Exército ficou a conhecer a existência do grupo de Che Guevara e, depois de alguns combates, acabaram por capturá-lo a 8 de Outubro, quando foi ferido numa perna.

 

Outros acontecimentos

Este ano também consta nos anais da Medicina por se ter realizado o primeiro transplante de coração com sucesso, no hospital Groote-Schuur, na África do Sul, por uma equipa de cirurgiões dirigida pelo Dr. Christian Barnard. O transplantado, Louis Washkandsky, de 55 anos, viveu 18 dias com o coração de uma doadora de 25 anos, falecida num acidente. A África Negra caracterizou-se por continuar numa fase aguda de instabilidade. Logo a 13 de Janeiro, deu-se um golpe de Estado no Togo, através do qual o Exército, sob o comando do tenente-coronel Etienne G. Eyadema, destituiu o presidente constitucional, Nicolas Grunitzky.

 

Biafra

Mas o conflito mais sangrento e brutal foi a guerra do Biafra, cujos antecedentes remontam ao ano anterior, quando desapareceu o frágil equilíbrio interétnico da Nigéria. A guerra começou quando os ibos (cristãos), que representavam apenas 15% da população mas que possuíam no seu território quase 70% das reservas de recursos naturais do país, proclamaram a independência da República do Biafra, a 30 de Maio, pela mão do até então governador militar da região, tenente-coronel Odumegwu Ojukwu. A 6 de Julho, o Governo central iniciou uma ofensiva que não ganhou terreno e, a 9 de Agosto, as tropas do Biafra passaram à ofensiva, apoderando-se de toda a região Oeste, até cerca de 200 km de Lagos. Mas o resultado da guerra também se jogava na frente diplomática e, aqui, a OUA teve um papel decisivo. Com apenas três anos de existência, era-lhe vital demonstrar que os africanos podiam governar África. Os estatutos da OUA estabeleciam a intangibilidade das fronteiras coloniais porque, num continente em que a maioria delas eram artificiais, a sua alteração levaria a uma escalada bélica generalizada. Assim, na cimeira da OUA em Kinshasa, a 14 de Setembro, a secessão do Biafra foi explicitamente condenada e, a partir daí, a vitória governamental era só uma questão de tempo. A 20 de Setembro, o Exército central reconquistou Benim, a capital da região Centro-Oeste, recolhendo os biafrenses às suas fronteiras e, a 4 de Outubro, ocupou Enugu, capital do Biafra. No entanto, a capital foi mudada para Onitsha, obrigando as tropas do Governo a perseguir os secessionistas. A guerra só terminaria a 12 de Janeiro de 1970, com a submissão de todo o Biafra. A intervenção portuguesa em apoio da secessão foi decisiva, sobretudo no campo logístico, pois pôs à disposição diversos aeroportos. O principal foi o de São Tomé e Príncipe, mas também foram utilizados os de Lisboa, Faro, Henrique Carvalho (Angola) e Bissau. A partir de Lisboa estabeleceu-se uma ponte aérea entre a Europa e a África, através da qual se transportavam armas, munições, uniformes, comida, tabaco, mercenários, etc. Também em Lisboa, funcionava toda uma rede biafrense encarregada de recrutar, comprar, pagar e gerir, enquanto o Estado Novo fornecia ao Biafra armamento, desde G3 a artilharia, passando por munições e bombas de aviação, além de pilotos e alguns mercenários. Para esta acção, Portugal contou com a colaboração da Rodésia e da África do Sul.

Mas, deve destacar-se, sobretudo, que a intervenção destes três países neste conflito e no da República Democrática do Congo se devia à necessidade de demonstrar que a África das independências desenhada pela OUA podia ser vencida pela força das armas, e que a sua aliança tinha capacidade de desestabilizar qualquer um dos seus inimigos.

 

O Congo, de novo

A interferência portuguesa também incitou a uma mudança de regime em Kinshasa. Nos primeiros dias de Janeiro, Tchombé, na altura exilado em Madrid, enviou uma carta a Salazar comunicando-lhe que se estava a preparar para recuperar o Governo do Congo e que contava com a colaboração do líder rodesiano Ian Smith, para uniformizar, abastecer e transportar por via aérea os mercenários que ele próprio havia contratado. Lisboa, por seu lado, deveria autorizar que esta força pudesse concentrar-se numa base angolana, a partir da qual lançaria o ataque. O Governo português enviou um emissário a Madrid para conhecer mais detalhes da operação, apelidada de “A Revolta dos Mercenários”. Portugal percebeu que Tchombé contava também com apoios em França e na África do Sul e mostrou-se disposto a colaborar, pois precisava de limpar a fronteira norte de Angola. No entanto, Salazar exigiu que se congelasse a acção até clarificar qual era a posição da Grã-Bretanha em relação a Moçambique, por ter apoiado a Rodésia. Mas, a partir de 8 de Maio, quando o primeiro-ministro britânico, Harold Wilson, afirmou no Parlamento que não usaria o Exército para submeter a Rodésia, Lisboa sentiu-se mais cómoda para se empenhar numa acção que derrubasse Mobutu do Governo do Zaire. Num momento de agudização da guerra, era fundamental para Portugal impermeabilizar a fronteira norte, e a vitória de Tchombé garantia-o. Por isso, Salazar encontrou-se, em Lisboa, na primeira quinzena de Junho, com o professor René Clémens, enviado especial do líder catanguês, para ultimarem os detalhes do plano. Mas, inesperadamente, a 30 de Junho, o avião em que Tchombé viajava de Madrid para Ibiza foi desviado pelo seu guarda-costas François Bodeman e conduzido a Argel. Ali, Tchombé foi preso e morreria, depois de dois anos de cativeiro, de um suposto ataque de coração. Coincidindo com este sequestro, estalou uma revolta em apoio do líder, em Bukavu, Kindu e Kisangani (Stanleyville).

 

Grupo de apoiantes do dirigente congolês Pierre Muble, que se opunha a Mobutu. [Revista Révolution Congolaise]

 

O principal problema residia em que nenhum dos objectivos da revolta podia cumprir-se: devolver o poder a Tchombé e restituir os bens à Union Minière du Haute Katanga (UMHK), que Mobutu tinha nacionalizado em Dezembro do ano anterior. A PIDE ainda estudou o resgate de Tchombé, a pedido do seu irmão Daniel, mas não pôde concretizá-lo e, por isso, sem ele não era possível disfarçar qual o objectivo final da revolta. Ou seja, que os accionistas estrangeiros da UMHK recuperassem os seus negócios perdidos e, com eles, o seu poder de desestabilizar o país, uma vez que exploravam as jazidas de urânio, cobre e cobalto, e tinham interesses noutros sectores extractivos e industriais. A Revolta dos Mercenários, para além de surgir sem um perfil político definido, foi também um desastre no campo militar. Os seus principais chefes eram dois “soldados da fortuna”: Jean Schramme, um brasileiro que, antes da independência, dirigira uma plantação, e que, durante a primeira secessão catanguesa, fora o chefe do Corpo de Gendarmes, e Bob Denard, um francês que tinha participado em todos os conflitos do Congo desde a sua independência, primeiro às ordens de Tchombé, e depois às de Mobutu, como chefe do 5º Comando. Mas agora juntava-se de novo à insurreição porque sabia que o Governo de Kinshasa planeava expulsar os militares estrangeiros quando alcançasse a estabilidade. A revolta fracassou porque as forças dos dois mercenários tinham de juntar-se em Kisangani para receber armas, material e logística do Exército português, mas Bob Denard foi ferido logo ao início e foi evacuado para a Rodésia, enquanto Schramme, com cerca de 150 mercenários brancos e 800 ex-gendarmes, derrotou o Exército regular. No entanto, Mobutu conseguiu o apoio dos Estados Unidos para transportar as suas melhores unidades para a zona, acabando por sitiar Schramme em Bukabu, durante vários meses. Este era reabastecido mediante o lançamento de cargas aéreas, com a colaboração sul-africana e aviões rodesianos, que partiam do aeródromo angolano de Henrique Carvalho. Em Agosto, Portugal organizou a Operação Lúcifer com uma centena de mercenários europeus que chegaram a Luanda e se concentraram no campo de Silva Porto, ao norte da colónia, onde já estavam cerca de 50 catangueses, e onde se constituíram dois grupos sob o comando do recuperado Bob Denard. Entraram no Catanga de bicicleta, onde deveriam encontrar veículos para se dirigirem para Bukavu e, ali, romper o cerco e juntar-se às tropas de Schramme. Mas foram emboscados por forças regulares do Congo e tiveram de regressar a Angola. Por outro lado, quando a situação se tornou insustentável, os sitiados fugiram para o Ruanda, onde entraram a 5 de Novembro. A Operação Lúcifer também pretendia substituir Mobutu por um irmão de Tchombé, preso numa ilha em frente do Congo, e nessa acção anfíbia para o libertar deveria participar um navio da Armada portuguesa. A 11 de Dezembro, o Governo português, consciente da importância militar dos gendarmes catangueses na desestabilização do Congo, legalizou a sua presença em Angola como refugiados e instalou-os em Cimbila (Lunda), enquadrando-os no seu Exército para lutarem no Leste. 

 

Portugal e a África do Sul

Nas relações entre Portugal e a África do Sul institucionalizou-se a cooperação e ajustaram-se as políticas, para assegurar uma aliança mais efectiva. Em Fevereiro, Salazar enviou o seu representante pessoal, Jorge Jardim, para se encontrar com o primeiro-ministro sul-africano e avaliar o seu grau de compromisso perante um eventual aumento das sanções a Moçambique ou um ataque militar britânico. O líder sul-africano foi muito claro e contundente, afirmando que o seu país ajudaria Portugal em qualquer eventualidade. Esta disponibilidade foi o gérmen da aliança estratégica que ambos os países, juntamente com a Rodésia, desenvolveram nessa época e que, a nível estratégico, se concretizou no Plano de Cunene e em Cahora Bassa. Salazar apoiou estas realizações faraónicas para atar a metrópole às suas colónias africanas, evidenciando perante o mundo que a sua posição à descolonização não era uma questão circunstancial e que estavam ali para ficar. Para concertar políticas e estabelecer uma clara cooperação militar e de informações, a 7 de Abril chegou a Lisboa Pieter Botha, ministro da Defesa sul-africano. Encontrou-se com o próprio Salazar e com diversos ministros: Defesa, Negócios Estrangeiros e Ultramar. Também se estabeleceu uma coordenação entre os serviços secretos sul-africanos, o Bureau of State Security (BOSS) e a PIDE, aos quais se juntou mais tarde a Central Intelligence Organisation (CIO) da Rodésia. No seguimento dos anteriores acordos, em princípios de Julho, Franco Nogueira visitou oficialmente a África do Sul e o Malawi, para reforçar a cooperação regional, especificamente na área do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros, e também na da Segurança e Defesa. Apesar de não ter visitado a Rodésia, por causa do boicote internacional, ficou claro que interessava tanto a Pretória como a Lisboa apoiar sem fissuras o regime racistade Salisbúria. A 14 de Setembro, depois de a África do Sul se ter mostrado disposta a ajudar materialmente Portugal, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Luís da Câmara Pina, elaborou um memorando para o seu homónimo de Pretória, general Fraser, no qual o pedido mais significativo era o de ajuda aérea, pelo que Pretória acabou por entregar a Portugal aviões Dakota, equipamento de transmissões TR-28 e material de acampamento. Mas, em Novembro, o Governo sul-africano decidiu que todos os envios de material se realizariam através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o que acabou por atrasar as entregas e impedir a consolidação de uma certa autonomia militar portuguesa, ante a qual o poder afrikander era algo susceptível. 

 

Aspecto da construção da barragem de Cahora Bassa. [DGARQ-TT-SNI]

 

Zâmbia

Em relação à Zâmbia, em Fevereiro, depois de várias críticas oficiais e oficiosas do Governo de Lusaca contra Portugal, por violação das suas fronteiras, o embaixador português em Londres fez saber ao seu homónimo de Lusaca que, se Angola fosse atacada a partir da fronteira com a Zâmbia, este país teria problemas com as suas importações e exportações, recordando-lhe assim que era refém das comunicações terrestres, e especialmente dos caminhos-de-ferro de Angola, e que, se continuassem as sabotagens à linha Lobito-Benguela, surgiriam represálias. Consciente da sua fragilidade, e perante o fracasso da ONU e da comunidade internacional para neutralizar o regime da Rodésia, Kenneth Kaunda, não só amenizou o tom do seu discurso, como ainda, em meados de Novembro, contactou com o Governo português, através de um seu agente, para que enviasse uma delegação a Lusaca.

Lisboa enviou Manuel Fernandes, um jurista de prestígio e ex-procurador da Câmara Corporativa, que se encontrou com Kaunda em finais de Novembro e lhe entregou um memorando, recordando que os pedidos de ajuda de Lusaca, aquando da crise rodesiana, tinham sido sempre devidamente atendidos, enquanto, pelo contrário, este Governo tinha permitido a infiltração de guerrilheiros pelas suas fronteiras, o que tornava a situação insustentável. Também acrescentou que o Governo da Rodésia não albergava nenhuma atitude hostil contra a Zâmbia, antes pelo contrário, esperava colaborar com ela. Assinalava ainda que Portugal acreditava ser possível manter uma ampla colaboração económica, sanitária, no campo das comunicações, etc.

Kaunda, inteligentemente, concordou com a política portuguesa e anunciou que estava disposto a estreitar, discretamente, as suas relações com Portugal. No entanto, Portugal percebia que Kaunda tinha pouca margem de manobra entre o seu ideário a favor da emancipação africana e a sua situação geográfica, numa área dominada pelo colonialismo europeu ou pelos seus epígonos.

 

Aspecto do Caminho-de-Ferro de Benguela, via de comunicação vital para os países do interior, em especial a Zâmbia. [CD/DN]

 

Malawi

A única aliança de Portugal com um Governo africano continuou a ser o Malawi, com o seu presidente Banda, e nunca como em 1967 Portugal se sentiu tão forte para exteriorizar essa relação, nem o Malawi tão convencido do poder de Lisboa para não ter de escondê-la. Assim, em Março, os ministros dos Transportes e das Finanças do Malawi chegaram a Lisboa para fechar a venda das acções que o seu Governo possuía de uma parte da linha férrea moçambicana, enquanto que, por seu lado, Portugal se comprometia a que a linha férrea que construía de Nacala a Nova Freixo chegasse até à fronteira, para que o Governo do Malawi a continuasse a partir do seu território. O Malawi conseguia, assim, acesso ao mar e, em troca, comprometia-se a impedir a passagem da FRELIMO pelo seu país, ao mesmo tempo que se estabelecia um mecanismo de colaboração entre ambos os serviços de informação. Este acordo, que tornava o Malawi ainda mais dependente de Portugal, foi assinado no início de Julho em Lilongwe, com a presença do presidente Banda e do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Franco Nogueira. Coincidindo com a visita de Franco Nogueira, os serviços de informação portugueses avisaram o presidente Banda que se preparava um golpe de Estado para o derrubar, quando ele saísse do país para uma visita oficial aos Estados Unidos. O golpe contaria com o apoio da Zâmbia e da Tanzânia, desejosas de que houvesse uma inflexão política no país. A veracidade da existência desta trama não pôde ser verificada e há a possibilidade de que fosse apenas uma manobra do Governo de Lisboa para tornar a sua ajuda ainda mais imprescindível, mas, de qualquer forma, o comandante-chefe de Moçambique colocou na fronteira comum um forte contingente militar, capaz de neutralizar o golpe, se ele chegasse a realizar-se.

 

Portugal e a política colonial

Ao longo de 1967, a política colonial portuguesa voltou a ser questionada pelas principais instituições internacionais. Em Março, a comissão dos Direitos Humanos da ONU condenou a África do Sul e a Rodésia por colaborarem com Portugal. Em Maio, a Comissão de Descolonização, reunida em Lusaca, exigiu que se concedesse definitivamente a independência aos territórios sob soberania portuguesa. Os países limítrofes das colónias portuguesas continuaram mergulhados no caos, especialmente a República Democrática do Congo, cujo Governo acusou Portugal de favorecer a agressão por parte de forças mercenárias procedentes de Angola, o que era verdade, pelo que, a 10 de Julho, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução condenatória contra qualquer interferência estrangeira nesse país. A diplomacia portuguesa ficou satisfeita por não ter sido mencionada explicitamente nesta declaração. Mas, cinco meses mais tarde, numa nova resolução de 15 de Novembro, condenava-se especialmente Portugal por ter permitido que os mercenários utilizassem Angola como base para atacar o Congo. Meses antes desta resolução, também o Senegal tinha denunciado Portugal por violar as suas fronteiras terrestres e aéreas, mas a denúncia não surtiu efeito, uma vez que Lisboa negou taxativamente esses factos. A 3 de Novembro, a Assembleia Geral insistia em denunciar a postura portuguesa e a sul-africana por darem apoio ao Governo ilegal da minoria racista rodesiana; e no dia 17, condenava energicamente o Governo português por não cumprir as leis internacionais, pela Guerra Colonial que travava, pelos interesses económicos que esta política protegia, ao explorar a mão-de-obra indígena e os recursos dos territórios que administrava, e por impedir a liberdade dos povos que dominava. Contudo, esta disposição foi contestada, entre outros, pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Espanha e África do Sul, enquanto outros países ocidentais, como França, Itália, Canadá e Suécia, se abstiveram. Tornava-se evidente que, apesar de toda a retórica, a política portuguesa contava com apoios sólidos. Apesar disso, e conscientes de que a crítica internacional desgastava o Estado Novo, os países do Terceiro Mundo e o bloco soviético continuaram a recorrer à ONU e a acumular resoluções, como a aprovada a 4 de Dezembro, que exigia ao Governo português que deixasse de explorar e oprimir as suas colónias e lhes concedesse a independência. Logo a seguir, no dia 16, pedia-se aos organismos especializados e às instituições relacionadas com a ONU que prestassem assistência económica, social e humanitária, de maneira urgente e eficaz, aos refugiados das colónias portuguesas, sendo que, três dias depois, se regulou a concessão de ajudas para programas de ensino e formação para habitantes dos territórios sob administração portuguesa.

 

A OUA e os movimentos de Angola

A OUA, por seu lado, teve duas acções destacadas: tentar a conciliação entre os principais movimentos de libertação angolanos, o MPLA e a FNLA, e trabalhar em prol das independências. Em relação à unidade das forças emancipalistas, em Fevereiro pressionou ambas as organizações para que se unissem numa só organização capaz de coordenar a luta de libertação nacional. Como sempre, estes gestos acabaram em fracassos e, três meses mais tarde, o Comité de Libertação da OUA reuniu-se em Kinshasa para se informar da capacidade militar de ambas e para se certificar se era verdade que o GRAE/FNLA não era operacional e que deveria reconhecer o MPLA. A delegação acordou então em continuar a reconhecer o GRAE/FNLA, mas sem deixar de ajudar o MPLA. Já em Setembro, no decorrer de uma reunião de chefes de Estado e de Governo da OUA, em Kinshasa, para tratar da crise do Congo, desencadeada pelos mercenários, aprovou-se a criação de uma comissão de militares profissionais que ajudasse os movimentos de libertação em questões logísticas, e foi decidido conceder-lhes o estatuto de observadores.

 

Outras iniciativas

Outras iniciativas censurando o Governo português surgiram de entidades dependentes da ONU. Em Julho, em Genebra, na sua Conferência Internacional, a OIT denunciou Portugal como um dos países que não respeitavam as suas resoluções em matéria laboral. E no Seminário Internacional sobre “Apartheid e Colonialismo na África Meridional”, realizado em Kitwe (Zâmbia), chegou-se à mesma conclusão, assinalando que os problemas económicos, políticos e sociais das populações africanas só poderiam melhorar com o fim do colonialismo e da discriminação racial. Por fim, em Outubro, em Addis Abeba, na conferência organizada pelo Alto Comissariado para os Refugiados, da ONU, condenou-se com dureza a política do Executivo salazarista.

 

UNITA

Em relação a Angola, Savimbi continuou no interior do Moxico até Fevereiro, quando partiu para a Zâmbia. A direcção da UNITA, perante a repressão desencadeada no Leste pelo comando português, e a sua rivalidade com o MPLA, achou conveniente preservar a segurança do seu presidente, tendo em conta a debilidade do seu movimento, e considerando que era melhor que este vivesse no exterior e ajudasse a obter meios para se reforçarem. Segundo as suas próprias fontes, a decisão tinha sido tomada em Lumege, depois do fracassado ataque a Teixeira de Sousa. Mas o certo é que, em Fevereiro, a 2ª Companhia de Comandos, comandada por Jaime Neves, realizou um ataque nocturno a uma base da UNITA na área de Lucusse. Este assalto falhou porque a base estava situada ao lado de um rio que tinha subido muito com as chuvas, pelo que demoraram muito a atravessá-lo e a companhia encarregue de cortar a retirada da base perdeu-se, o que permitiu que vários centenas de guerrilheiros fugissem, ainda que deixassem para trás grande quantidade de material. Segundo a PIDE, que pela primeira vez colaborava com os Comandos na planificação de uma operação, Savimbi encontrava-se nesta base, que era um centro de instrução e uma das mais seguras da UNITA. Esta sensação de insegurança deverá ter acelerado a sua saída do país. Em Março, Savimbi chegou a Lusaca, onde se encontrou com Kaunda. Os dois dirigentes mantinham relações cordiais pois tinham estado juntos em Bombaim, antes da ocupação de Goa por Nova Deli, quando Savimbi era dirigente da UPA e Kaunda o principal líder do Partido Nacional Unido da Independência (UNIP), da Zâmbia. Dentro da nova conjuntura, o líder zambiano mostrou-se disposto a ajudar Savimbi e, de facto, deu-lhe um passaporte zambiano para que pudesse deslocar-se pelo mundo, mas marcou-lhe dois limites que não podia ultrapassar, na sua luta pela libertação, para não comprometer o seu país: que não houvesse actividade militar organizada a partir da Zâmbia, e que o Caminho-de-Ferro de Benguela não fosse atacado, pois era vital para a sua economia. Savimbi aceitou estas condições e iniciou uma viagem a vários países, entre os quais o Egipto e a República Popular da China, onde foi recebido por Mao Ze Dong. Entretanto, em Março, forças da UNITA que, supostamente, desconheciam os compromissos entre Kaunda e Savimbi, atacaram o Caminho-de-Ferro de Benguela em duas ocasiões: a primeira, perto do Luso, e a segunda, perto de Teixeira de Sousa. A resposta das autoridades portuguesas foi alargar ao máximo o tempo das reparações, que demoraram 25 dias, para assim causar prejuízos à economia zambiana. A linha voltou a ser cortada em Dezembro e a reparação estendeu-se por 15 dias. Em Junho, ao regressar do seu périplo internacional, Savimbi foi detido pela polícia zambiana e ficou preso durante seis dias, ao fim dos quais foi expulso definitivamente para o Cairo, depois de Nasser ter interferido a seu favor. Passou nove meses neste país, o que lhe proporcionou numerosos contactos internacionais e aproveitou-os para criar um comité, integrado por si próprio, Jorge Sangumba, Tony Fernandes e N’Zau Puna, este encarregue das relações internacionais e de procurar apoios. Savimbi e N’Zau Puna não regressariam ao interior de Angola até meados do ano seguinte. Nessa altura, a UNITA, com graves problemas logísticos e de armamento, sem apoios exteriores significativos, e com os quadros radicados em Lusaca pressionados pelo Governo zambiano, sofreu uma paralisia grave e uma crescente divisão, que ameaçaram gravemente a sua continuidade. Contudo, em Maio, conseguiu criar núcleos subversivos no distrito do Bié, entrando em choque com o MPLA que, mesmo antes da própria UNITA, já tentava implantar-se nas regiões mais próximas do Planalto Central, habitado pelos ovimbundus, a etnia maioritária da UNITA. Por isso, este movimento deparou-se muitas vezes com a situação de iniciar a politização das populações do Leste, percorrendo as sanzalas, para depois chegar o MPLA, melhor equipado e armado, e aproveitar-se do seu esforço. No entanto, por vezes o contrário também acontecia, como, por exemplo, quando o MPLA tentou aproximar-se dos refugiados angolanos do maior campo de refugiados da Zâmbia, o de Maheba, e percebeu que a maioria já tinha sido contactada pela UNITA. Esta concorrência saldou-se frequentemente, desde 1967, em confrontos mútuos.

 

Jonas Savimbi com população do Leste. [CD/DN]

 

FNLA e MPLA

Por outro lado, continuou o choque sangrento entre a FNLA e o MPLA, no Norte. O partido de Agostinho Neto enviou a Angola uma segunda coluna de apoio à 1ª Região Militar, denominada Destacamento Camy, em honra de um guerrilheiro morto em Cabinda. Era dirigido pelo comandante Benigno Vieira “Ingo”, e saiu em Março, em plena época das chuvas, o que levou a que o guia se enganasse no itinerário. Além disso, os cursos de água obrigavam a esgotantes marchas contínuas para os conseguirem cruzar, pelo que muitos dos seus homens morreram de esgotamento e fome, enquanto outros foram presos em confrontos com o Exército português ou com a FNLA e executados. Dos cem que saíram do Congo-Brazzaville, apenas 19 chegaram à 1ª Região Militar. Pouco tempo depois, ainda saiu outra coluna, denominada Ferraz Bomboko, que partiu de Dolisie (Congo-Brazzaville), para atravessar o território até à fronteira da República Democrática do Congo com Angola. Mas os seus homens tiveram de se confrontar com o Exército zairense e com efectivos da FNLA, perdendo grande parte dos seus membros e do seu armamento. Os restantes regressaram ao ponto de partida. A luta chegou a ser tão feroz no Leste que o MPLA criou um destacamento específico para aniquilar os efectivos da UNITA, o “Esquadrão Anti-Noka”, comandado pelo comandante “Angola Livre”. Por outro lado, os choques entre a FNLA e o MPLA, que eram frequentes na zona da 1ª Região Militar, durante a segunda metade do ano estenderam-se também ao Leste, quando a direcção da FNLA destacou para essa acção o comandante Bernardo Macapá, que se instalou na zona de Kalveji (província de Catanga) e, dentro de território congolês, organizou a base de Mukaka que, no seu início, contou com 70 soldados. Este foi o centro de formação de recrutas mais importante da FNLA no Leste, perto das fronteiras de Angola e Zâmbia. A partir deste ano, as tropas da FNLA confrontavam-se tanto com as da UNITA e do MPLA como com as do Exército colonial, pelo que o Leste se converteu na zona da guerra de todos contra todos, o que, a longo prazo, só beneficiava a potência colonial.

 

O Leste de Angola

A guerra no Leste obrigou o Exército português a modificar a sua estrutura de comando, estabelecendo o seu Quartel-General Avançado no Luso e realizando incursões sobre a Zâmbia, tanto com forças de Infantaria como aéreas. Este novo dispositivo permitiu-lhe melhorar a sua actividade operacional, o que incluiu a intensificação das operações helitransportadas com tropas especiais e a utilização de unidades a cavalo, cujo primeiro pelotão se estabeleceu em Silva Porto. Estas tropas, neste ano, revelaram-se especialmente aptas para patrulhar as imensas “chanas” do Leste e também para atrasar a progressão da guerrilha. Justamente quando Agostinho Neto anunciava que a direcção do MPLA passava para o interior, cresceu a repressão no Mochico, com o incremento dos aldeamentos estratégicos. Também se criaram, em Novembro, os Conselhos de Contra-Subversão, pensados para que houvesse uma via regulamentada de harmonizar o poder civil e o militar, nas zonas atingidas pela acção guerrilheira. Assim, estabelecia-se que, em caso de necessidade, toda uma área pudesse passar para controlo exclusivamente militar. Outras das novidades contra-subversivas foi a criação dos Flechas, à imagem dos “selous scouts” rodesianos. De facto, este país colaborou na sua constituição, tendo o seu criador, Óscar Cardoso, subchefe da delegação da PIDE em Serpa Pinto, visitado, juntamente com outros polícias e militares, o centro de pisteiros de Kariba, na Rodésia. O recrutamento inicial fez-se entre os vassequeles, que formaram o grosso do contingente e foram utilizados como pisteiros, dada a sua capacidade inata para seguir rastros, pois ainda eram caçadores recolectores.

 

Militares junto a um curso de água no Leste de Angola. [ADF]

 

Em Moçambique, a actividade militar da FRELIMO continuou a centrar-se nas zonas que dominava, em Cabo Delgado e Tete. A sua principal actividade consistia em dificultar a passagem do Exército colonial nos itinerários que habitualmente utilizava, através de minas de grande potência. Nestes distritos, a subversão estava muito disseminada, mesmo quando não se manifestava, como referem informações militares portuguesas. A actuação da guerrilha beneficiava da proximidade à sua retaguarda tanzaniana, que lhes permitia operar sem grandes problemas logísticos. Por outro lado, em Tete, onde o Governo português tornou pública, em Agosto, a construção da gigantesca barragem de Cahora Bassa, no curso do rio Zambeze, a FRELIMO tinha começado a infiltrar armas e a mobilizar as populações para a sua causa, mas até Setembro não estalaram conflitos armados na zona de Macanga. Esse aumento da área sublevada não fez diminuir a intensidade da sua acção bélica nas áreas tradicionais. Assim, a actuação no distrito de Tete foi simultânea com continuados e persistentes ataques ao aquartelamento de Mueda (Cabo Delgado) que, durante o mês de Setembro, foi atacado em três ocasiões, a última das quais no dia 22, durante duas horas. Coincidindo com a actividade guerrilheira em Tete, o brigadeiro Francisco da Costa Gomes, comandante da Região Militar de Moçambique, remodelou de forma definitiva a organização militar da colónia, convertendo o Quartel-General Avançado de Nampula em efectivo, e criando o novo sector militar de Tete, para se antecipar dentro do possível ao crescimento da guerrilha. Nas áreas que controlava, a FRELIMO criou cooperativas agrícolas que garantiam o abastecimento dos combatentes e, quando produziam excedentes agrícolas, vendiam-nos no mercado tanzaniano ou no do Malawi. Mas a organização política desta zona foi um foco de divergências dentro deste movimento. A 25 de Setembro, o Comité Central aprovou a constituição dos comités provinciais, que se encarregariam de dirigir as actividades nas zonas sob sua jurisdição, subordinando a actividade política à militar. Kavandame opôs-se porque esta medida retirava legitimidade aos chefes tradicionais como ele e Uria Simango. Estas divergências amplificaram-se nos meses seguintes. 

 

Os itinerários de Moçambique foram uma das principais dificuldades encontradas pelas forças portuguesas. [AHM]

 

Guiné

Na Guiné, o general Schultz tentou controlar diversas áreas perdidas desde o início da guerra com acções de grande envergadura, mas que resultaram em fracassos, como foram as de Quetafine, Península Pobreza e Norte de Bigene. A situação militar degradou-se paulatinamente, apesar do incessante aumento de tropas, que passaram de cerca de 1000, em 1960, para 25 000, em 1967; e tornou-se especialmente dramática nos últimos meses do ano. Otelo Saraiva de Carvalho diria que o general Schultz revelou tanta incompetência militar e governativa e fez tantas asneiras que quase conduzia o PAIGC à vitória. Num panfleto que circulou clandestinamente entre oficiais milicianos podia ler-se que o seu governo se caracterizava por uma repressão aberta e que, às populações, só lhes restavam três opções: a prisão, o silêncio ou participar activamente ao lado do PAIGC, contra o sistema colonial. Mas a verdade é que a consequência disto foi um aumento considerável do número de guerrilheiros combatentes e a Guiné passou a ser um inferno, onde a situação militar era cada vez mais delicada. Schultz não conseguiu coordenar a actuação do Exército com a Marinha e a Força Aérea e, em 1967, havia uma certa desmoralização entre as suas unidades pelo aumento contínuo da potência de fogo da guerrilha, pois o PAIGC melhorou a disciplina dos seus efectivos e estabeleceu um novo organigrama, mais efectivo. Em finais de 1966, o PAIGC tinha criado, dentro do Bureau Político, um Conselho de Guerra, encarregue de pôr as três grandes frentes debaixo da dupla autoridade dos seus principais dirigentes. Aristides Pereira e Nino Vieira encarregaram-se do Sul, Luís Cabral e Chico Mendes, do Norte, e Osvaldo Vieira e Pires, do Leste. O objectivo era coordenar melhor a luta militar e a política. O Conselho de Guerra também decidiu substituir as subsecções por bigrupos, constituídos por apenas 32 homens, convertendo-os em agrupamentos flexíveis, fáceis de comandar, e aumentando a presença guerrilheira, em detrimento da sua densidade, o que lhe permitia ter maior controlo sobre o território e incrementar a sua actividade operacional. Para esta situação contribuiu a chegada de instrutores de Artilharia cubanos e a criação do Corpo de Comandos, na base de Cumban Hory, no Senegal, que seria assaltada por tropas especiais portuguesas, sendo a primeira vez que se violava a fronteira com esse país. A partir de Janeiro, a sua mensagem começou a chegar a toda a Guiné, através das emissões da Rádio Libertação, a Voz do Povo, porta-voz do PAIGC, mas que só começaria a difundir com regularidade a partir de 16 de Junho.

 

Deslocamento de uma unidade portuguesa numa bolanha da Guiné. Este tipo de terreno alagado e pantanoso obrigava a um grande esforço físico, para além do clima com elevadas temperaturas e humidade. [AJMS]

 

Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe

Em Outubro, a PIDE deteve um dos dirigentes do arquipélago de Cabo Verde, Lineu Miranda, e outros companheiros seus, como Luís da Fonseca, Jaime Hare-Soofield e Carlos Tavares, desmantelando a estrutura do PAIGC em Santo Antão. Foram julgados na Praia, a capital, o que deu uma notável visibilidade ao partido, pois as ideias emancipalistas e a luta da Guiné e das outras colónias portuguesas estavam já bastante difundidas. E no arquipélago de São Tomé e Príncipe, as autoridades chegaram a ter receio de que se desse um ataque por parte da Nigéria ou de algum dos seus aliados, por ter sido a principal plataforma de Portugal na ajuda à secessão do Biafra. No entanto, nada aconteceu.

 

Política interna

Em relação à política metropolitana, o ditador tinha reduzido sensivelmente a sua compreensão do mundo, ainda que os seus partidários tenham tentado apresentá-lo sempre como pleno de força e vigor. Toda a sua atenção se concentrava nas questões coloniais, com as suas derivações militares e diplomáticas, ao mesmo tempo que se ia desinteressando da política interna. Os conselhos de ministros, que se reuniam duas vezes por mês e não duravam, já em 1961, mais de três horas, acabaram por se reunir cada vez menos. Isto levou à autonomia quase ilimitada dos ministros e à progressiva deterioração da coordenação interministerial, que acabou por prejudicar o trabalho do Governo. Como assinalaram alguns membros desses gabinetes, muitos ministros passavam largos meses sem que Salazar tivesse necessidade ou ocasião de lhes falar. Gastava frequentemente as audiências de trabalho falando das suas antigas experiências e adiando os problemas urgentes que não queria abordar ou discutir. Por isso, também as relações entre os membros do Governo não eram as melhores, sendo especialmente difíceis entre o ministro das Finanças, Ulisses Cortez, e o da Economia, Correia de Oliveira, e más entre o ministro da Defesa, Gomes de Araújo, e o do Exército, Luz Cunha. Nesta conjuntura adversa, o salazarismo apoiou-se nos seus aliados tradicionais, entre os quais se destacavam a NATO e a Igreja Católica. Em Fevereiro, a NATO estabeleceu o quartel do Comando Ibero-Atlântico em Oeiras, num claro reforço do Estado Novo e da sua política africana. A RFA também estava do lado de Portugal, como se tornou evidente em Abril, quando o Hospital de Hamburgo recebeu os primeiros 88 mutilados portugueses por causa das minas, em troca da utilização da Base Aérea de Beja pela sua Força Aérea. A diplomacia portuguesa também se regia por esses parâmetros. Por isso, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros visitou Viena, em Fevereiro, Brasil, no início de Outubro, e a Espanha, em Dezembro, três dos seus aliados chave. Também foi importante o apoio israelita que, reconhecendo o papel desempenhado pelos Açores durante a Guerra dos Seis Dias, enviou um emissário a Lisboa que se encontrou secretamente com Salazar, no início de Setembro, garantindo-lhe o apoio de Telavive à sua política africana. Mas o êxito diplomático mais importante foi alcançado com a visita de Paulo VI, que permitiu ao regime normalizar as suas relações com o Vaticano, depois do Concílio Vaticano II. Em Fevereiro, com o argumento da celebração do 50.º aniversário das aparições de Fátima, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira convidou o Papa Paulo VI a visitar esta localidade. O Sumo Pontífice aceitou o convite oficialmente a 3 de Maio e logo o Governo português publicou uma declaração afirmando que este era um acontecimento histórico, e apressou-se a rentabilizá-lo politicamente, pois, apesar de a Santa Sé não ter programado nenhuma visita a Lisboa, Paulo VI foi recebido no aeroporto de Monte Real pelas principais figuras do regime: o presidente da República, Américo Tomás, e todos os membros do Governo presidido por Salazar. Todos assistiram à missa celebrada no santuário de Fátima, ocupando o lugar mais destacado da basílica, numa cerimónia transmitida televisivamente para todo o mundo, e depois desta, o papa recebeu-os em audiência. No entanto, isto não significou que a ditadura deixasse de atacar os sectores confessionais progressistas, que procuravam desgastá-la. De facto, durante a visita do papa, houve uma tentativa, organizada pelo arquitecto Teotónio Pereira, para que oito ou dez padres angolanos deportados de Angola se refugiassem no edifício da Nunciatura e invocassem a protecção papal, mas tal acção não chegou a realizar-se. Já em Abril a PIDE fechara a cooperativa católica Pragma, e o padre Feliciano Alves, de Santa Maria de Belém, fora perseguido por denunciar a guerra, a ditadura e a omnipresença da polícia política.

 

Chegada do ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Gerhard Schroeder, ao aeroporto de Lisboa, sendo recebido por Franco Nogueira. [DGARQ-TT-O Século]

 

Obras faraónicas

Outro aspecto chave do consulado salazarista foi a tentativa de ancorar Portugal em África, mediante a realização de duas obras faraónicas: o Plano Cunene (Angola) e Cahora Bassa (Moçambique). Eram dois projectos que necessariamente atrairiam capital internacional que, dessa forma, se tornaria solidário com o império português. A construção destas duas barragens foi aprovada num Conselho de Ministros realizado no início de Julho, no meio de um intenso debate, que levou Salazar a ter de intervir em seu favor. Contra ela havia vários ministros, sobretudo os da área económica, João Dias Rosa e Correia de Oliveira, que colocaram sérias dúvidas sobre a capacidade financeira do país, onde a guerra engolia mais de 30% do Orçamento Geral do Estado, e porque os dois empreendimentos beneficiavam principalmente a África do Sul, ainda que o segundo se realizasse na fronteira de Angola com a Namíbia, país ocupado por Pretória. Tanto a barragem de Cahora Bassa como o Plano Cunene iriam exportar mais de 80% da energia produzida para a África do Sul e, além disso, este último proporcionaria água para regar diversas zonas da Namíbia. Por isso, os críticos do projecto achavam que o esforço de investimento deveria ser suportado maioritariamente pelo país beneficiário.

 

A ditadura

As divergências no seio do gabinete coincidiram com um problema maior: a incapacidade da ditadura de dar ao seu povo condições de vida dignas, como se tornou evidente com as chuvas torrenciais que afectaram, nesse ano, a área de Lisboa, Alenquer e Ribatejo, destruindo muitas habitações situadas em zonas inundáveis, cortando as comunicações e causando a morte a mais de 500 pessoas, além de provocar estragos em edifícios e infra-estruturas. No final do ano estalou outro escândalo, este de cariz sexual, que incluía a perversão de menores e que chegou a sacudir profundamente uma ditadura que pretendia assentar em sólidos e conservadores pilares morais. Foi o caso “Ballet Rose”, no qual estavam implicados o ministro da Economia, Correia de Oliveira, e outras destacadas personalidades do regime. No entanto, em Portugal não se soube nada sobre este assunto inicialmente, porque a Censura o impediu. Além disso, o ditador opôs-se a que os implicados fossem julgados, sendo acusadas só as prostitutas, e impediu que se castigassem os culpados, enterrando o assunto, o que levou à demissão do ministro da Justiça, em Setembro. Mas, em Dezembro, a imprensa internacional (Sunday Times e Jeune Afrique) fez eco do tema, o que provocou uma actuação policial contra Mário Soares, Urbano Tavares Rodrigues e Francisco Sousa Tavares – três destacados oposicionistas – acusados de terem facilitado a informação.

 

Gomes de Araújo (à direita), ministro da Defesa, durante uma visita à Alemanha com o seu homólogo alemão, Gerhard Schroeder. [DGARQ-TT-O Século]

 

Oposição

A velha Oposição republicana, representada pela Acção Democrática e Social (ADS), dirigida por Cunha Leal, Acácio de Gouveia e Nuno dos Santos, mostrou escassa actividade. Limitou-se a apelar ao presidente da República em duas ocasiões, através de abaixo-assinados. O primeiro, em Março, acusou o Governo de não ter uma política externa capaz de assegurar a permanência dos portugueses nos territórios ultramarinos e, por isso, de ser responsável pela humilhação de Portugal perante a China, por causa da questão de Macau. O texto foi assinado por 48 pessoas. O outro documento, redigido em Dezembro, com 50 assinaturas, criticava a falta de liberdades, a perpetuação da ditadura e o agravamento da situação do país após sete anos de guerra, insistindo no isolamento internacional. No entanto, esta era a velha contestação “reviralhista” que o salazarismo semitolerava, para demonstrar que em Portugal havia Oposição e que só se perseguiam os comunistas. Além disso, a ADS não se opunha à situação colonial, como tinham assinalado, numa carta publicada clandestinamente, Ruy Luís Gomes e José Morgado, dois destacados opositores, em Julho desse ano. Nessa época deu-se também a desagregação do movimento maoísta. Depois da detenção da sua direcção, nos anos anteriores, os activistas restantes exilaram-se e, em Janeiro de 1967, realizaram em França a I Conferência do Comité Marxista-Leninista Português (CMLP). Surgiram duas correntes: a que queria dissolver o seu braço armado, a Frente de Acção Popular (FAP), e a que queria mantê-lo, para não cair no revisionismo doutrinal de que acusavam o partido de Álvaro Cunhal.

 

Silva e Cunha, ministro do Ultramar, preside à cerimónia de um empréstimo de 500 000 contos da Diamang a Angola. [DGARQ-TT-O Século]

 

O PCP, por seu lado, continuou com grandes dificuldades, sendo influenciado pelas detenções dos anos anteriores, que geraram uma onda de desconfiança entre os militantes. Também a infiltração policial, que conseguiu colocar delatores dentro do movimento estudantil, causou golpes profundos na organização. Em Maio e Junho foram presos vários militantes, entre eles Dinis Miranda, membro suplente do Comité Central. As detenções permitiram à polícia neutralizar uma tipografia regional, vários dirigentes e muitos militantes e simpatizantes do Algarve, Alentejo e Margem Sul do Tejo, como reconheceu o próprio PCP. Nesse último mês foram ainda detidos outros dirigentes e militantes em Lisboa e localidades próximas, entre os quais Graciete Casanova e Henrique da Graça, que tinham feito um curso de formação da Escola Central de Moscovo. Além disso, o trabalho pouco coordenado e descontínuo levou muitos militantes a sair do país. O socialismo iniciou nesse ano a sua reorganização. Tito de Morais, com o apoio do PS italiano, publicou em Roma, no 1.º de Maio, o número 1 do Portugal Socialista, órgão da Acção Socialista Portuguesa (ASP), e preparou a viagem de Mário Soares a Itália, ainda nesse mês, durante a qual se encontraria com os principais dirigentes socialistas italianos. A sua popularidade cresceria com a sua detenção, a 13 de Dezembro. A novidade no panorama político foi o aparecimento da Liga de União e Acção Revolucionária (LUAR), cuja existência era desconhecida até 17 de Maio, data em que assaltou a delegação do Banco de Portugal, na Figueira da Foz, apoderando-se de cerca de 30 000 contos (150 000 euros).

 

Saída de uma coluna com viaturas GMC e uma Daimler (sem torre) para operações no Leste da Guiné. [AJMS]

 

A 17 de Setembro, noutra operação audaciosa, apoderaram-se de diverso armamento, ao assaltar o quartel de Évora. Era o aparecimento efectivo do “guevarismo” político em Portugal, que recebeu a influência do “reviralhismo” republicano, da revolução cubana e dos movimentos de libertação africanos. Além da contestação política, a ditadura sofreu greves dos sectores conserveiros do Algarve, em Janeiro e, em Outubro, dos pescadores de Matosinhos.

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