1967 - África para sempre: Cahora Bassa

1967

Biafra - Um caso como exemplo

O Biafra

A República do Biafra foi um Estado de existência breve, resultante de uma secessão da tribo dos ibos do Sul da Nigéria contra o poder central. Até à independência, em 1960, a Nigéria tinha sido uma colónia inglesa e, para assegurarem o equilíbrio de forças internas, os ingleses distribuíram o poder entre as tribos principais. Deram os postos de prestígio aos houassas e fulas, maioritários e islamizados, os lugares de eficácia aos ibos, que eles tinham cristianizado e europeizado nas suas escolas, e, como fiel da balança, colocaram os yoroubas, animistas e a terceira maior etnia. Graças ao cacau e ao estanho, a economia progrediu e parecia que a aliança de islamizados, cristãos e animistas funcionava.

 

Bandeira do Biafra.

 

O petróleo: os ibos ganham “consciência petrolífera”

Mas o petróleo surgiu em 1963 e tudo mudou. Em 1966, as companhias britânicas Shell e BP já extraíam 20 milhões de toneladas. Americanos, italianos (ENI) e franceses passaram a disputar esta fonte. Os ibos ganharam “consciência petrolífera”. Eram apenas oito milhões num país de 55 milhões, habitavam em apenas 75 000 km2, mas dispunham dos melhores quadros. Educados pelos ingleses, tinham passado a ser os médicos, os engenheiros, os economistas das estruturas do Estado e privadas.

A partir do seu território acreditaram poderem cortar a via do petróleo que tinha o seu terminus em Port Harcourt, e explorar os 67% de reservas situadas na sua província. Esta crença deu-lhes a ilusão de força e incitou-os a arriscar a secessão. Em Janeiro de 1966, o primeiro-ministro, um respeitado homem do Norte, Sir Abubakar Balewa, foi assassinado pelo Exército, mas rapidamente se descobriu que os autores eram oficiais ibos, assim como o chefe da tentativa de golpe, Aguiyi Ironsi.

A partir daqui, iniciou-se um ciclo de vinganças, e os ibos pediram a todos os seus irmãos para regressarem. Dois milhões voltaram à terra natal. São os melhores quadros nigerianos. Na Primavera de 1967, nos 75 000 km do território ibo, era possível encontrar 500 médicos, 600 engenheiros, 700 advogados e 20 000 funcionários públicos.

Os ibos armazenaram víveres e dinheiro e deixaram a Nigéria desprovida de quadros. O seu chefe era o general Ojukwu, que aos 36 anos se tornou director da Bolsa.

 

 

Ingenuidade e vocação guerreira

Os ibos, que trabalhavam em todas as profissões, excepto na das armas, descobriram uma súbita vocação guerreira. Mas eram, com o general Ojukwu à cabeça, sobretudo ingénuos, relativamente à moral internacional. Acreditaram na simpatia do Ocidente, tomaram os votos da França, os sentimentos do Vaticano, a emoção dos escandinavos, por laços firmes de aliança. Os rumores da crise na Nigéria atravessaram rapidamente as fronteiras e vários organismos internacionais tentaram evitar o conflito que se anunciava. A ONU interveio, como habitualmente, com pouco sucesso e a jovem OUA tomou o lugar da ONU. Para a Organização da Unidade Africana tratava-se tanto de mostrar a capacidade dos africanos regularem os seus próprios conflitos como de evitar o efeito de nódoa de azeite alastrando sobre o continente, onde uma parte dos Estados acabava de aceder à independência dentro das fronteiras coloniais. A crise nigeriana fornecia para alguns a prova de que os africanos não estavam ainda preparados para a independência.

 

A posição de Portugal

A tese de que os africanos não estavam prontos para a independência era muito cara a Portugal, e também à Rodésia e à África do Sul. Para Portugal servia para justificar a manutenção das suas colónias africanas, para a Rodésia para justificar a sua independência unilateral e para a África do Sul a sua política de desenvolvimento separado, o apartheid. A secessão de um território como o da Nigéria constituía um precedente de peso no continente africano, uma derrota da OUA que, na sua carta constitutiva, declarava a intangibilidade das fronteiras herdadas da colonização. A OUA queria a todo o custo evitar todas as veleidades separatistas. Mas todos os esforços de mediação da OUA foram em vão e o Estado Federal da Nigéria e a jovem República do Biafra acabaram por se envolver nas hostilidades armadas.

 

Estranhas alianças 

No seu esforço de guerra, as duas facções foram apoiadas por aliados diferentes. Ao lado do Biafra formou-se uma estranha constelação de aliados – o Gabão, a Costa do Marfim, o Haiti, a Tanzânia e a Zâmbia reconheceram o novo Estado. A França liderou o apoio encoberto, com a Rodésia, a África do Sul e Israel. O Vaticano seria o grande defensor internacional da causa do Biafra e Portugal a sua principal base operacional e logística. Do lado do Estado Federal estiveram a Inglaterra, a URSS e a Itália. Todos tinham as suas razões para apoiarem um dos lados. A mais estranha das razões oficiais era a do Vaticano, que dizia defender o Biafra por os ibos serem uma das tribos perdidas de Israel. Há quem defenda uma justificação menos prosaica ligada aos interesses da ENI, a petrolífera italiana, que jogaria em dois tabuleiros, sendo apoiada junto do Estado Federal pelo Governo e junto do Biafra pela Santa Sé. Oficialmente, os aliados do Biafra forneciam apenas apoio humanitário; oficiosamente, o apoio foi, sobretudo, militar. A guerra tornou-se rapidamente “uma guerra civil internacionalizada”. Para a Inglaterra, o apoio à Nigéria representava a defesa das suas companhias de petróleo e o seu modelo de descolonização. A URSS sonhava ter um grande aliado no Atlântico, a Itália tinha a ENI interessada nas reservas nigerianas. Para a África do Sul, a Rodésia e Portugal, o Biafra era um bom pretexto para justificarem as políticas de negação de autonomia dos negros. Era também uma oportunidade para desestabilizarem os novos Estados africanos, como, aliás, Portugal tinha feito no Catanga. Como justificação oficial apresentavam a vantagem de terem um aliado no Golfo da Guiné na defesa da Rota do Cabo.

 

Portugal: um apoio decisivo

Nesta complexa teia de interesses onde se enovelavam justificações religiosas, estratégicas e económicas, tendo como pano de fundo o petróleo, o apoio de Portugal foi decisivo. As ilhas de São Tomé e Príncipe tornaram-se na principal base de apoio, incluindo apoio humanitário, as notas do Biafra foram impressas em Lisboa, onde estava instalada a maior representação diplomática. Vários portugueses combateram no Biafra como mercenários e um piloto foi feito prisioneiro. Muitos aviões T-6 e T-8G partiram do Aeródromo de Tires, em Cascais.

 

Portugal: um apoio contra-natura

O Governo de Salazar apoiou o Movimento de Libertação do Biafra, mais tarde Movimento de Emancipação do Delta do Níger (MEND), que atacou repetidamente as instalações do gigante petrolífero Shell, mas combatia os movimentos de libertação de Angola, de Moçambique e da Guiné-Bissau.

A posição portuguesa relativamente à guerra do Biafra compreende-se pela necessidade e desejo de Portugal estar ao lado da França, que era o seu principal fornecedor de material de guerra, e da África do Sul e Rodésia, seus aliados regionais. Estar contra a Inglaterra era um motivo extra de satisfação para Salazar, uma pequena vingança. A guerra do Biafra causou entre 800 000 e um milhão de mortos e acabou com uma catástrofe humanitária, com três milhões de ibos refugiados em 2.500 km2 sujeitos à fome e à doença. Mas deixou uma lição para o conjunto da África – a intangibilidade das fronteiras herdadas do período colonial. Com apoio da OUA, a maioria dos Estados africanos concorda que as fronteiras existentes, por mais artificiais e injustas que sejam, representam uma expectativa de paz e de convivência comum, enquanto qualquer tentativa de alteração do mapa colonial poderá lançar as jovens nações num redemoinho de destruição mútua.

 

Arquivos Históricos

Lugares de Abril

Curso História Contemporânea

Roteiro Didático e Pedagógico

Base Dados Históricos

Site A25A

Centro de Documentação

Arquivo RTP

Cadernos 25 Abril

Filmes e Documentários

Arquivos Históricos

© 2018 – Associação 25 de Abril