1968 - Continuar o regime e o império

1968
A continuidade da política nacional

Em 1968, a actualidade mundial focou-se em três assuntos: o assassínio de Martin Luther King, a revolução do Maio de 68 com as suas repercussões fora de França e a Primavera de Praga.

 

Assassínio de Luther King

A execução do líder pacifista norte-americano ocorreu em 4 de Abril, quando apareceu a uma varanda do Lorraine Motel de Menfis (Tenessee), onde se preparava para liderar uma manifestação a favor das reivindicações dos trabalhadores negros do lixo, afectos ao sindicato local. O seu assassínio provocou uma onda de distúrbios raciais nas principais cidades do país, tendo sido declarado o estado de excepção.

Tratou-se, seguramente, de uma conspiração, já que o “establishment” temia a capacidade mobilizadora de King e da organização Southern Cristian Leadership Conference (SCLC) que ele liderava. Luther King tinha recebido o Prémio Nobel da Paz em Outubro de 1964 e era muito crítico da Guerra do Vietname, dos elevados gastos da Defesa e da falta de programas sociais contra a pobreza e a discriminação racial.

 

Maio de 68

Também o Maio francês teve a ver, na sua origem, com os protestos contra a Guerra do Vietname. No dia 22 de Março, oito estudantes da Universidade de Nanterre, um subúrbio industrial de Paris, protestaram contra a detenção de vários estudantes do Comité Nacional do Vietname. Um mês depois mais de um milhar de estudantes reuniram-se em Nanterre e protestaram contra a política repressiva governamental. Em 2 de Maio, as autoridades académicas decretaram o encerramento de Nanterre, onde os estudantes havia várias semanas boicotavam as aulas. No dia seguinte foi ocupada a Sorbonne. A polícia interveio com extraordinária violência e fez dezenas de detidos. Durante vários dias no Bairro Latino parisiense ocorreram confrontações violentas entre os manifestantes e as forças da ordem, enquanto, por toda a França, as universidades iam sendo tomadas pelos alunos.

A Revolução de Maio de 68 estendeu-se a toda a Europa Ocidental, em maior ou menor grau, incluindo Portugal e Espanha, fazendo-se sentir em outras partes do mundo. O Maio francês propiciou a emergência de uma nova esquerda, consolidando o trostkismo e o maoísmo, e provocando um profundo surto de guevarismo: Brigadas Vermelhas, Facção do Exército Vermelho (Bader Meinhoff), IRA provisional, ETA VI-Assembleia, etc. Mas também significou uma reactualização do capitalismo que deixou de ser de produção e passou a ser de consumo de massas.

 

Primavera de Praga

Coincidente com a revolta estudantil iniciou-se um lento processo de transição política na Checoslováquia, que ficou conhecido como a Primavera de Praga. Começou em 5 de Janeiro com a destituição do presidente da República, Antonin Novotny, que também perdeu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista Checoslovaco (PCCh), sendo substituído pelo reformista Alexandre Dubcek. À destituição de Novotny seguiu-se, em Março, a supressão da censura à imprensa e, em 4 de Abril, foi remodelada a própria direcção do PCCh, que passou a integrar uma maioria liberal. A nova correlação de forças anti-estalinista obrigou à demissão do chefe do Governo, Jozef Lenart, substituído por Oldrich Cernik, partidário de Dubcek. Ante a abertura democrática que o país experimentava, o dirigente russo Breznev e os seus aliados do Pacto de Varsóvia recearam que se repetissem os acontecimentos da Hungria de 1956 e que o programa da direcção checa de estabelecer um “socialismo com rosto humano” não fosse outra coisa que a deriva capitalista do país, como referiu, em 11 de Julho um editorial do Pravda, órgão do PCUS. No dia 20 de Agosto teve início a invasão do país por tropas do Pacto de Varsóvia, com excepção da Roménia, para imporem a normalização. Em geral a resistência da população foi passiva e os poucos focos armados que se opuseram foram reprimidos com brutalidade. Em 17 de Novembro e durante três dias, estudantes de Praga, Boémia e Morávia protestaram contra as novas autoridades. A repressão, embora menos violenta do que na Hungria, incluiu a expulsão de mais de 20% dos militantes do PCCh e o seu total descrédito. A atitude soviética desprestigiou profundamente o comunismo, e alguns partidos dessa ideologia de todo o mundo opuseram-se à brutalidade da invasão, mas não o PCP.

 

Cortejo de estudantes em Praga, com uma bandeira da Checoslováquia. Era o início do fim da chamada Primavera de Praga. [DGARQ-TT-O Século]

 

África

Em Janeiro, a OUA realizou em Conacri a reunião do Comité de Libertação de África, na qual renovou o apoio aos movimentos emancipalistas das colónias portuguesas, da Namíbia, do Zimbabué e da África do Sul. Mas a divisão dos países africanos independentes como consequência da guerra do Biafra afectou gravemente a credibilidade desta instituição africana. Em Março, os países africanos solicitaram ao Conselho de Segurança que fossem tomadas medidas efectivas para derrubar o Governo de Salisbúria e para que o embargo fosse efectivo, alargando-se a todos os portos de Moçambique e também da África do Sul. Portugal, receando que essas propostas viessem a prosperar, enviou instruções ao seu embaixador em Pretória,
Meneses Rosa, para que sondasse as autoridades sobre a solidariedade que seria de esperar no caso da ONU estabelecer sanções contra Portugal e bloquear outros portos. No princípio de Abril a resposta do primeiro-ministro sul-africano confirmou que continuariam ajudando em qualquer circunstância a Rodésia e Portugal e, no caso de serem estabelecidas sanções contra estes dois países, não pensavam cumpri-las. Tampouco aceitariam qualquer outro bloqueio à parte o da Beira, já estabelecido.

 

Portugal, a África do Sul e a Rodésia

A pressão sobre Pretória e Lisboa reforçou ainda mais a íntima colaboração dos seus regimes, o que os levou à criação de comandos conjuntos de apoio aéreo entre as suas forças e ao estabelecimento de um convénio de cooperação militar que passava tanto pela cedência de material aéreo, aviões e helicópteros, como pela participação conjunta de unidades aéreas e terrestres a partir de Cuito Canavale (Cuando-Cubango) e Gago Coutinho (Moxico) para combater no Leste de Angola. Por outro lado, as autoridades rodesianas também estabeleceram uma sólida cooperação cívico-militar com Moçambique, com uma representação do Exército em Salisbúria, enquanto em Nampula se trocavam informações com oficiais rodesianos. Para além disso, tropas rodesianas e portuguesas realizaram acções conjuntas na província de Tete e, a meio do ano de 1968, passaram também a Manica e Sofala, actuando tanto contra as guerrilhas do Zimbabué como contra as do COREMO e da FRELIMO. Esta cooperação política e militar entre Portugal e os países racistas do Sul da África era vital para todos. Para estes, porque, ao contribuir para a estabilidade das colónias portuguesas mantendo a guerrilha longe das suas fronteiras, estavam a assegurar a tranquilidade interior; e ao participar em operações conjuntas com o exército português, estavam a viver uma experiência real em combate; para Portugal também era vantajoso porque conseguia maiores efectivos de combate e também de armamento mais moderno, já que esses países compravam com menos restrições.

 

Conferência entre o presidente dos EUA, Lyndon Johnson, e o secretário-geral das Nações Unidas, U’Thant, sobre a situação de África e da Ásia. [DGARQ-TT-O Século]

 

Portugal e os países vizinhos de Angola e Moçambique

Para além da Tanzânia, com quem Lisboa sempre manteve relações claramente hostis, Portugal confrontou-se também com a República Democrática do Congo (RDC). Em relação à RDC, Portugal continuou a acusar Mobutu de ser o responsável pelo terrorismo no Norte de Angola e de ter permitido que ele alastrasse ao Leste, onde a FNLA passou a actuar no saliente do Cazombo. Portugal respondeu com uma manobra desestabilizadora: o enquadramento dos ex-gendarmes catangueses, que desde 4 de Abril passaram a ser um corpo auxiliar de unidades de contraguerrilha na zona fronteiriça do Leste, actuando contra os movimentos de libertação e, eventualmente, contra Mobutu. Até à descolonização em 1975 serviram sempre os interesses das autoridades coloniais.

Diferente foi a atitude portuguesa na Zâmbia, país ao qual o Governo de Lisboa e também os de Pretória e Salisbúria queriam obrigar a que abandonasse o seu compromisso com os movimentos de libertação, em troca da cooperação económica, fazendo do país um novo Malawi. Kaunda desenvolveu esforços conciliadores em direcção a Lisboa que controlava as suas comunicações terrestres através do Caminho-de-Ferro de Benguela, mas não renunciou a apoiar os movimentos de libertação. Neste sentido, pactuava com os países de hegemonia branca, mas quando se sentia mais seguro relativizava os acordos.

Pela sua parte Portugal, ao longo de 1968 e perante a intensificação da guerra, decidiu não respeitar as fronteiras dos países vizinhos onde os movimentos de libertação tinham as suas retaguardas.

Em 22 de Março, a Força Aérea bombardeou três aldeias zambianas, provocando sete vítimas mortais, uma dezena de feridos e numerosos danos materiais. Kaunda protestou veementemente contra o Governo de Lisboa e, um mês mais tarde, Franco Nogueira enviou-lhe uma carta explicando que Portugal já tinha investigado o incidente e remetido uma informação, que desculpava Portugal, ao embaixador da Zâmbia em Londres.

Referia ainda que se as autoridades zambianas tinham novas provas, a comissão portuguesa de investigação estava disposta a examiná-las e a discuti-las. Aproveitava o ministro para comunicar que o seu Governo estava aberto também a discutir todos os temas bilaterais que pudessem surgir e fossem de interesse mútuo. Kaunda, pela sua parte, sondou a possibilidade de uma aproximação a Lisboa e em Maio, em Nova Iorque e Londres, ocorreram contactos bilaterais, tendo Portugal chegado a pensar que Kaunda estava disposto a assinar um tratado de boa vizinhança. Mas Kaunda, uma vez mais, ganhava tempo. Mais favorável a Portugal era a relação com o Malawi. Estabeleceu-se uma colaboração permanente entre os serviços secretos de Lilongwe e a PIDE de Moçambique. Para além disso, o Governo português cedeu ao Malawi lanchas para vigilância das águas do lago Niassa para impedir a infiltração da FRELIMO no distrito de Tete através daquele lago. Contudo, os chefes militares de Moçambique acusaram as autoridades malawianas de jogar com um pau de dois bicos quando foi activada a frente de Tete, o que provocou a realização de diversas operações contra a FRELIMO sem respeito pela soberania do Malawi, pelo que Banda protestou junto do cônsul do país na Beira, que tentou apaziguar os desentendimentos e estreitar a cooperação comum. De facto, o Malawi converteu-se numa espécie de protectorado português e foram as autoridades de Lisboa que aconselharam Banda a estabelecer relações diplomáticas com a África do Sul, o que ocorreu em Janeiro, sendo o primeiro Estado africano a fazê-lo.

 

Guiné-Conacri

Com outros países africanos Portugal teve também graves problemas. O incidente mais significativo ocorreu com a Guiné-Conacri, quando, em 27 de Março, as autoridades de Bissau retiveram um avião ligeiro que, procedente daquele país, aterrou por engano em território português com uma delegação do Mali. De Lisboa permitiram que os malianos pudessem abandonar o território, mas impediram a saída dos membros da tripulação e do aparelho, enquanto as autoridades de Conacri não libertassem cinco militares portugueses presos pelo PAIGC. A República Federal da Alemanha foi encarregada de mediar a crise, mas a tensão foi crescendo até ao ponto de, três semanas depois, caças dos dois países entrarem em contacto visual, embora sem outras consequências.

 

Angola

O movimento de libertação que teve mais dificuldades em actuar foi a FNLA, apesar do empenho posto nesse sentido por Mobutu. As causas da sua ineficácia operacional eram variadas: não tinha recuperado das contínuas cisões; a sua área de actuação, uns 200 000 km2, situava-se na fronteira com a RDC, área em que a organização de contra-subversão portuguesa estava mais solidamente implantada e onde as informações, quer através da PIDE, quer do Exército, eram mais efectivas. Para além disso o peso da guerra tinha-se transferido para o Leste, onde a sua presença era muito recente e onde o MPLA e a UNITA dividiam a iniciativa das acções de guerra.

 

Grupo de guerrilheiros do MPLA. [CD/DN]

 

Quanto ao MPLA, Agostinho Neto anunciou em Brazzaville, a 3 de Janeiro, que o Comité Director do MPLA ia transferir-se em breve para o interior do país, mas antes fez escala em Dar es Salam onde foram instalados grande parte dos seus serviços básicos. Juntamente com o seu estabelecimento no interior, Neto e os dirigentes mais próximos acreditavam que era fundamental consolidar as duas regiões militares (Cabinda e Dembos) e com esse objectivo em 22 de Fevereiro realizou-se em Dolisie uma Conferência Regional, na qual participaram os membros do Comité Director, das organizações sectoriais do Movimento, os comandantes militares dessas zonas e do esquadrão Bomboko que se tinha refugiado em Brazzaville depois de ter tentado infrutiferamente chegar à 1ª Região Militar através da RDC. Foi em Abril que se deu a transferência de militantes do MPLA de Brazzaville para Dar es Salam e daqui para a fronteira da Zâmbia com Angola. O objectivo do MPLA era o de organizar, no Leste, diversas regiões militares: a 3ª, que abarcaria os distritos do Moxico e Cuando Cubango; a 4ª, na Lunda e Malange, com o posto de comando na mata de Chissombo, ao norte do rio Cassai (Lunda); e a 5ª, no Bié. Onde conseguiu maior implantação foi na 3ª, por estar mais próxima da fronteira da Zâmbia e por ser uma zona onde o dispositivo militar colonial era débil. Em Maio iniciou-se a mobilização da 4ª Região Militar, por parte do comandante Petrov em direcção aos distritos da Lunda e Malange e em 8 de Agosto a vanguarda do destacamento Bomboko chegou à região de Luatxe (Moxico), na sua lenta progressão até à 1ª Região Militar situada no Cuanza Norte, o que permitiria completar a Rota Agostinho Neto e reforçar essa Região Militar, a partir da qual podia iniciar o cerco à capital. Relativamente à UNITA, em Julho de 1968, Savimbi regressou da sua viagem ao exterior para conseguir apoios, constatando que a Zâmbia lhe recusava apoio por causa do Caminho-de-Ferro de Benguela, atitude que era apoiada pela China. O isolamento da UNITA era praticamente total. Acresce que, durante a ausência de Savimbi, se manifestou um grande desentendimento entre os grupos dirigentes e as forças guerrilheiras, que se encontravam dispersas no interior e sem comunicações. Também o moral estava em baixo, porque tinham que enfrentar o MPLA e as tropas coloniais. A UNITA perdia influência entre a população em detrimento do MPLA que, melhor armado e abastecido, podia garantir protecção quando as populações fugiam das aldeias estratégicas (ndandandas), coisa que a UNITA não podia fazer. Também nas áreas do MPLA, este eliminava os membros da guerrilha da UNITA que encontrava.

 

Guiné

Em relação à Guiné, especial significado teve, no dia 19 de Fevereiro, o ataque do PAIGC a Bissalanca, o aeroporto internacional situado a 10 km de Bissau. A acção pretendia ser uma resposta à visita que o presidente da República, Américo Tomás, tinha realizado entre os dias 2 e 8 do mesmo mês. Era a primeira vez que o PAIGC conseguia actuar na ilha de Bissau. Portugal, com a viagem do presidente, pretendia desmentir a intensidade da guerra na colónia, mas o objectivo não foi muito conseguido porque, na maior parte do tempo, permaneceu em Bissau e só no dia 4 se deslocou por algumas horas a Nova Lamego e a Bafatá, de avião. No dia seguinte, também por meios aéreos, foi a Bolama e à ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, onde o controlo português não era contestado.

 

Guerrilheiros do PAIGC. [CD/DN]

 

Em Março, Salazar chamou o brigadeiro António de Spínola, oficial de Cavalaria, que tinha fama de duro e competente para governador e comandante-chefe. Este, conhecendo as dificuldades que envolvia a defesa da colónia, teve uma conversa franca e inusual com Salazar a quem manifestou a necessidade de realizar uma política de promoção social destinada a retirar o apoio à guerrilha. Spínola tomou posse do cargo em 20 de Maio e pretendeu criar um equilíbrio de forças que permitisse uma negociação honrosa, mas o problema eram os meios para consegui-lo. Em Novembro voltou a Lisboa e, perante o Conselho Superior de Defesa Nacional, pediu um reforço de 10 000 homens e um aumento dos orçamentos para obras e infra-estruturas, assim como o reforço do equipamento militar, especialmente helicópteros. Quando Spínola regressou a Bissau, reuniu todos os oficiais para lhes dizer que não lhes pedia que ganhassem a guerra, mas apenas que não a perdessem, já que a solução do conflito era política e não militar e só era necessário tempo para procurar uma saída negociada. A situação militar que encontrou à sua chegada era comprometedora. O Sul estava nas mãos do PAIGC quase desde o início das hostilidades; o Oeste estava também controlado pela guerrilha, à excepção dos manjacos que se encontravam em fase de pré-insurreição; e só o Leste, habitado pelos fulas, tradicionais aliados, se mantinha fiel ao poder colonial. O seu Estado-Maior sabia que o futuro se decidiria no chão manjaco, onde o PAIGC estava desenvolvendo uma crescente actividade, pelo que a campanha de promoção económica e social de Spínola se dirigiu para esta zona, evitando assim que os papéis, em cuja região se encontra a ilha de Bissau, fossem contagiados. Spínola actuou dentro do princípio de que num conflito desta natureza a acção militar desempenha um papel secundário. Um mês e meio depois da sua chegada tinha elaborado um projecto político-militar que denominou “Uma Guiné Melhor” que abarcava três sectores: a promoção socio económica; a manobra psicológica; e a acção militar. Na primeira fase, e para mudar o curso da guerra, em 15 de Julho, o Comando-Chefe da Guiné mandou remodelar o dispositivo militar e abandonar alguns aquartelamentos e zonas com escasso valor militar, para concentrar os efectivos em sítios estratégicos importantes, onde fosse possível controlar as populações e ter suficientes tropas para realizar acções ofensivas.

 

Moçambique

Em Moçambique as tropas portuguesas eram dirigidas operacionalmente pelo brigadeiro Costa Gomes e demonstraram uma grande capacidade, tendo assaltado a base Inhambane, situada a sul de Nambude (Cabo Delgado) e também outra base situada em Monte Casero, na qual fizeram prisioneiros e destruíram extensas áreas de cultivo. No mês seguinte atacaram um enclave guerrilheiro a nordeste de Miteda (Cabo Delgado) e em Junho destruíram o acampamento Novo Vietname, situado na zona de Marrupa (Niassa). Contudo, o êxito mais importante foi o assalto à base Gungunhana, a mais importante do distrito do Niassa, por uma companhia de Comandos no dia 1 de Abril, em que a FRELIMO perdeu 22 guerrilheiros e diverso material de guerra entre o qual três metralhadoras antiaéreas. As tropas portuguesas, de regresso a Vila Cabral e por causa de uma mina, sofreram a baixa do seu comandante, o capitão Horácio Valente. Este incremento da capacidade militar portuguesa foi favorecido pelas profundas divergências da guerrilha que, apesar disso, também desenvolveu acções importantes. Em Janeiro atacou o posto de Mitumba (Cabo Delgado) provocando diversos mortos e em Março e Julho fez o mesmo à base de Mueda (Cabo Delgado). Mas a acção de maior destaque foi a abertura em Março de uma nova frente no distrito de Tete. A guerrilha avançou desde a retaguarda tanzaniana e, dispondo de facilidades de passagem na Zâmbia, conseguiu penetrar no território moçambicano e estabelecer-se permanentemente na desembocadura do rio Capoche, iniciando as acções militares a partir deste vale. Reflexo das disputas internas, os alunos do Instituto Moçambicano na Tanzânia iniciaram uma greve, denunciando divergências políticas no seio do movimento de libertação. A greve do instituto foi organizada pelo sacerdote católico Mateus Gwengere que queria impedir que nele ensinassem professores portugueses, estabelecendo uma falsa correspondência entre ser português e ser colonialista, o que contrariava a filosofia difundida pela FRELIMO.

 

Alberto Chipande, comandante da FRELIMO, com a população maconde. [Revista Tempo]

 

Em 6 de Maio, um grupo de macondes assaltou a sede da FRELIMO e assassinou um dos membros do Comité Central, Mateus Sansão Mateaba, exigindo a independência imediata da província de Cabo Delgado. Era um ponto alto da profunda crise com que se debatia a direcção da guerrilha e da luta pelo poder que precedeu a realização do II Congresso da FRELIMO. O congresso decorreu de 20 a 25 de Julho com a presença de cerca de 150 delegados de todos os distritos do país em que decorriam operações militares, oito representantes políticos e nove militares de cada um. De Cabo Delgado apenas foram os militares, pois Kavandame e os seus seguidores decidiram não comparecer. A resolução mais importante foi a redefinição dos objectivos finais da luta, tendo optado pela Revolução Democrática Nacional, através da guerra popular prolongada que devia conseguir a independência total e completa e não só de uma parte. Os seguidores de Kavandame não concordavam nem com a espera da libertação do longínquo Sul nem que uma elite daquela origem, urbana e destribalizada, continuasse a impor-se. Perante esta fractura, Mondlane convocou em Agosto, em Mtwara, uma conferência com os líderes macondes que discutiam a sua autoridade. Kavandame e os seus seguidores declararam que queriam separar-se da FRELIMO, chegando a pedir à direcção do Tanzania African National Union, o partido oficial debaixo de cujos auspícios se realizava a conferência, que repartissem a ajuda que davam à luta de libertação ao meio, metade para eles e metade para a FRELIMO. O delegado do Governo tanzaniano apoiou Mondlane e a sua direcção e recomendou aos discordantes que continuassem trabalhando juntos. Mas as divisões continuaram e, em Dezembro, Paulo Kankhomba, membro do Estado-Maior e adjunto de operações, foi assassinado em Cabo Delgado por seguidores de Kavandame.

 

Política interna

O Conselho de Ministros de 10 de Julho adjudicou provisoriamente a construção de Cahora Bassa ao Consórcio Hidroeléctrico do Zambeze (ZAMCO) e um mês depois Salazar remodelou o Governo pela última vez (19 de Agosto), alterando sete pastas: Marinha, Exército, Interior, Finanças, Educação, Saúde-Assistência e Comunicações. Chegou a presidir a uma reunião do novo gabinete, mas a sua saúde já estava gravemente deteriorada. Em 26 de Setembro foi substituído por Marcelo Caetano, que recebeu uma herança complicada: um território com chocantes desequilíbrios regionais, uma população desinformada pela censura, uma elevada emigração e graves problemas derivados da perseguição política e um conflito sem sentido nem perspectivas, que consumia quase metade do orçamento do Estado e condicionava toda a vida do país. Quando da sua chegada ao Governo, as dissensões eram evidentes. No plano político concretizavam-se no confronto entre os ultras, partidários do reforço do perfil autoritário da ditadura, e os liberais. No económico, a guerra tinha-se revelado contraproducente para alguns sectores industriais pelo progressivo isolamento internacional que se converteu num sério obstáculo para as indústrias que precisavam de mercados externos (países do Leste, países árabes e novos países africanos), vedados pela política colonial da ditadura. Nas Forças Armadas percebia-se o cansaço gerado pelo esforço bélico. A Igreja, pela sua parte, ia manifestando um paulatino distanciamento, especialmente quando, em 1967, Paulo VI difundiu a encíclica Populorum progressio que, de forma inequívoca, atacava o colonialismo. A esta desagregação dos suportes tradicionais da ditadura uniu-se a rebelião do mundo da cultura, o cansaço das classes médias e, sobretudo, a acção persistente da Oposição que, tanto nas colónias como em Portugal, contestava a legitimidade do regime.

 

Oposição

A Oposição interior foi-se radicalizando conforme a guerra se alargava. Em Janeiro e em Fevereiro, respectivamente no Porto e em Lisboa, houve manifestações contra a intervenção americana no Vietname, o que era uma forma de denunciar as guerras nas colónias. Em 19 de Março, por decisão do Conselho de Ministros, Mário Soares foi deportado para a ilha de São Tomé. Acabou por regressar em 10 de Novembro por decisão do próprio Caetano, o que foi entendido como um gesto conciliador. De facto, o próprio Soares seria o impulsor, em Dezembro, de um “Manifesto à Nação” subscrito por cerca de 400 pessoas, no qual a Oposição moderada enumerava as condições mínimas para participar na vida política: lei eleitoral democrática, lei de imprensa que garantisse o pluralismo, ampla amnistia política e extinção das medidas de segurança. O texto foi profusamente mutilado pela censura.

As limitações da liberalização marcelista evidenciaram-se também na crise estudantil desse ano que, imitando os acontecimentos de França, se expandiu por todas as universidades do país. A Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa foi fechada em 20 de Maio e o Instituto Superior Técnico foi encerrado por ordem governativa em 26 de Dezembro quando os alunos, que estavam de férias, planeavam ocupá-lo. Em Coimbra também houve uma grande mobilização dos alunos, pois desde 1965 a sua Associação Académica estava a ser dirigida por uma comissão administrativa. Mas, em Novembro, por decisão do Conselho das Repúblicas e de organismos autónomos, foi criada uma Comissão Pró-Eleições que recolheu 2500 assinaturas, entregues ao reitor Andrade Gouveia. As eleições acabaram por se realizar em Fevereiro de 1969.

Também se assistiu a uma grande mobilização operária. No dia 21 de Janeiro, a lista da Oposição ganhou as eleições para a direcção do Sindicato dos Bancários de Lisboa. Em Março, os pescadores de Matosinhos fizeram uma greve por melhores salários e em Maio foi a vez dos de Aveiro, Figueira da Foz, Espinho e outras localidades pesqueiras. Em Junho pararam os trabalhadores da Carris de Lisboa. Também em 21 de Agosto um comando da LUAR tentou infrutiferamente ocupar a cidade da Covilhã, sendo detidos seis integrantes do grupo entre os quais se encontravam Palma Inácio e Fernando Pereira Marques.

 

Manifestação de estudantes na Cidade Universitária de Lisboa. [DGARQ-TT-O Século]

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